Segunda-feira, 12 de Abril de 2021

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Tito Guarniere Os paradoxos do brasileiro

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O economista Eduardo Giannetti da Fonseca mencionou o “paradoxo do brasileiro” em entrevista. (Foto: Fronteiras do Pensamento/Greg Salibian)

Em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, o economista Eduardo Giannetti da Fonseca mencionou o “paradoxo do brasileiro”. Todos nós o conhecemos – e muitos de nós o praticamos sem perceber. Nós, os brasileiros, somos extremamente rigorosos para julgar as falhas dos outros, mas somos indulgentes e concessivos quando se trata de nossas próprias falhas.

Nos achamos diferentes, superiores. Nos mostramos indignados com a corrupção, a incompetência, a estupidez, a falta de educação, a intolerância dos demais. Mas nós mesmos, com frequência, incorremos nos mesmos males, nos mesmos defeitos – sempre encontramos as desculpas mais improváveis para nossos erros e tropeços.

Giannetti fala dos seus alunos, nos 30 anos em que ele exerce o magistério superior. Os estudantes vão às ruas protestar contra o preço das passagens de ônibus, os desmandos dos governos, os malfeitos de dirigentes e políticos, porém uma boa parte deles simplesmente cola nas provas escritas. Eles não ligam as pontas – colar na prova é uma transgressão ética da mesma natureza e raiz de crimes e infrações legais, ou de gozar os privilégios de certas situações inacessíveis ao homem comum.

É da mesma essência do paradoxo do brasileiro o combate à desigualdade social e à concentração de renda, mas desde que a renda a ser repartida não seja a dele. É o caso dos professores da universidade pública que propugnam uma distribuição mais justa da renda, mas que na recente reforma da previdência, diante de possíveis perdas, reagiram como se lhes fosse esfolar a pele. A reforma da previdência, uma clara proposta distributiva, embora limitada, recebeu o carimbo de “neoliberal”, como é tudo que lhes desserve os interesses, uma forma de privilegiar os bancos e o grande capital.

Condenam (com razão) a desigualdade, o acúmulo da riqueza, mas passam ao largo de que a mais exuberante concentração da renda nacional se dá nas mãos do Estado – cerca de 34% do PIB. Esse olhar egocêntrico que só vê a si próprio, é da mesma natureza que mobiliza grupos e corporações para reclamar prioridade na vacinação – alguns deles têm alguma razão, outros apenas forçam a barra.

Os professores do ensino público não reclamam prioridade para a vacina – simplesmente não aceitam voltar às aulas presenciais, mesmo com todos os protocolos e cuidados para evitar o contágio da Covid-19. O fato de serem estáveis no emprego e de não ter sofrido redução de salário não faz parte da equação.

Se todos pensarem desse modo quem produzirá os alimentos que nos sustentam, quem os transportará até os centros consumidores, quem os venderá praticamente à porta de nossas casas?

Os professores ficam em casa por causa da Covid, mas não os caixas e repositores de supermercados (para ficar em um só exemplo), que têm contato direto todos os dias com centenas de clientes, que manipulam todos os dias milhares de produtos.

Olhando de perto, à direita e à esquerda, nada temos de muito diferente, nem de outros povos, e nem dentre nós mesmos. Como diz Giannetti, causando-nos um certo incômodo, “nós somos exatamente tudo isso que aí está”.

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