Segunda-feira, 01 de Março de 2021

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Tito Guarniere Porque ainda não temos vacina

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Muitas pessoas expressaram preocupações sobre segurança e eficácia da vacina. (Foto: Reprodução)

O maior desejo de todos no ano novo de 2021 é a saúde a vacina eficaz contra o coronavírus, a queda abrupta das internações e mortes, e o instante sublime em que, de algum modo, nos toque o sentimento de que os tempos voltaram a um certo grau de normalidade.

Enquanto escrevo, a vacina já está sendo aplicada na Austrália, Nova Zelândia, Estados Unidos, países da Europa e da Ásia. Aqui na América Latina, somente o Chile e o México começaram a imunização em seus territórios.

E a nossa vacina para quando fica? Ninguém sabe. A data mais próxima e otimista é a de 25 de janeiro, a promessa do governador João Doria, de São Paulo, da vacina chinesa Coronavac e do Instituto Butantã. Mas ainda não dá para cravar.

Seria possível, em diferentes circunstâncias, que igual ao México (PIB 40% menor do que o Brasil) e ao Chile (PIB menor do que o estado de Santa Catarina), já tivéssemos na fase da vacinação?

A resposta, mais do que óbvia: claro que sim – se eles podem, nós também poderíamos.

O que faltou, então? Faltou firmeza no trato da doença, faltou foco, faltou planejamento. Faltou governo. O governo brasileiro dançou o tempo todo na beira do precipício, negando a gravidade da doença e hostilizando toda experiência acumulada no combate à pandemia.

A pandemia não era, pois, uma tragédia sanitária de proporções épicas, mas um incidente trivial, a ser enfrentado com um kit de cloroquina e uma cartela de vermífugos.

Se era uma gripe comum, por que concentrar atenção e esforço na aquisição de vacinas? O governo operou em uma frequência única: comprar briga com todos os “dissidentes”, fossem eles governantes estaduais e locais, cientistas renomados, médicos especialistas e até seus próprios ministros de Estado, para fazer prevalecer a sua extravagante concepção sobre o fenômeno.

Nas redes sociais hordas de ignorantes ecoavam, com o ardor dos fanáticos, as suas certezas, ignorando avisos, sinais, pesquisas em curso, evidências médicas e científicas.

Ao desprezar a Covid-19, ao considerá-la uma doença curável facilmente com um “kit” de medicamentos inócuos, inúteis, senão prejudiciais, não passou na cabecinha dos governantes a ideia de se prevenir para o pior, adquirindo com antecedência lotes de vacinas de várias procedências – a primeira a ser aprovada estaria imediatamente disponível para a vacinação. Foi isso que os países que já estão imunizando a população fizeram.

O governo fez uma aposta única, exemplo deplorável de imprevisão e negligência, na vacina inglesa AstraZeneca-Oxford, e torpedeou o quanto pôde, com palavras e ações concretas, a iniciativa do governo paulista e a sua associação com o laboratório chinês Sinovac, gerando uma competição cretina, fora de hora e de propósito, na qual o grande perdedor é o povo brasileiro.

Se tivesse governo, a estas alturas já teríamos milhares de brasileiros imunizados contra a Covid-19.

Tivemos o grande azar de ter eclodido, justamente durante o pior governo, a mais devastadora crise sanitária do país. Olhando em perspectiva, e talvez porque Deus seja brasileiro, o estrago poderia ser ainda maior.

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