Terça-feira, 30 de junho de 2026
Por Redação O Sul | 14 de fevereiro de 2020
Depois de a coluna Radar, da revista Veja, revelar há três semanas a operação montada pela Receita Federal para devassar os contratos de celebridades da TV e do cinema com a Globo, o deputado federal Marcelo Calero (Cidadania23-RJ) protocolou, na quinta-feira (13), um requerimento para que o ministro da Economia, Paulo Guedes, preste informações sobre a suspeita de perseguição a funcionários da emissora pela Receita Federal.
Calero diz que as supostas investigações causam “estranheza” e “preocupação” num momento que, segundo ele, observa-se uma uma relação delicada da imprensa com o governo de Jair Bolsonaro.
“O mandatário vem atacando alguns veículos de mídia e seus profissionais, como tem acontecido com a Rede Globo, um dos meios de comunicação que o Presidente tem criticado publicamente. Bolsonaro vem cultivando histórico de ataques aos veículos de imprensa, que incluem ameaça à renovação da concessão da Rede Globo e tentativa de cancelar assinaturas da Folha no governo federal”, aponta.
O deputado também entende haver contradição na atuação da Receita Federal na questão, já que a atual gestão do Ministério da Economia “preza pela ampliação da capacidade de negociação trabalhista entre patrões e empregados”.
“O segmento artístico possui características singulares, que demandam maior flexibilização das relações de trabalho, uma vez que a prestação de serviços ocorre em modalidades distintas do modelo tradicional de jornada semanal de trabalho”, afirma o parlamentar no documento.
Na edição de Veja, o Radar mostra que, depois de exigir da emissora a cópia dos contratos e notas fiscais de serviços prestados por artistas, o Fisco do governo de Jair Bolsonaro agora quer saber como globais decoram textos de novelas.
Textos
Depois de exigir da emissora a cópia dos contratos e notas fiscais de serviços prestados por artistas, o Fisco do governo de Jair Bolsonaro passou a notificar os globais a prestarem esclarecimentos sobre a opção pelo contrato de pessoa jurídica, o famoso PJ, em vez do vínculo CLT com a Globo. Para o Fisco, o arranjo ator-emissora configuraria fraude na “relação de emprego”.
Agora, para provar essa teoria, a Receita decidiu avançar no próprio campo da arte. Em uma nova notificação contra os globais, o leão abre prazo de 20 dias e ordena a um ator global que descreva “detalhadamente como é feita a prestação de serviços de ator, desde o momento do convite para a realização de determinado trabalho, recebimentos de texto, memorizações de falas, ensaios, etc”.
A Receita também lista uma série de notas fiscais de serviços prestados à emissora em 2016 e manda o artista detalhar os serviços prestados e “fazer a devida correlação destes com a cláusula contratual que previa o pagamento”, além de “relacionar todas as obras audiovisuais e projetos artísticos dos quais tenha participado no âmbito do contrato” com a Globo.
Pelo menos 30 celebridades globais, como Deborah Secco e Reynaldo Gianecchini, estão na mira da Receita por causa dos contratos com a emissora, depois da chegada de Bolsonaro ao Planalto, segundo a coluna Radar. Para o advogado Leonardo Antonelli, que defende os globais, a ação do Fisco tem objetivo de punir os artistas para “destruir a Globo”, inimiga de Bolsonaro. Para o advogado, a Receita não pode mudar critérios jurídicos de atuação em função da troca de comando político no Palácio do Planalto.
“Existe lei federal proibindo que a mudança do comando da Receita Federal possa alterar os critérios jurídicos que, desde sempre, vinham sendo aceitos pelo fisco: seja porque é vedado retroagir com base nesse fundamento, seja porque em matéria de infração se deve interpretar da maneira mais favorável ao contribuinte”, diz.
A ação da Receita contra os artistas já provocou a reação de órgãos de controle. Procurador do Ministério Público junto ao TCU, Lucas Furtado pediu ao tribunal a abertura de investigação contra o Fisco por possível perseguição política contra a empresa, tratada por Bolsonaro como inimiga.
Diante da nova intimação, Antonelli lembra que a secretária de Cultura escolhida por Bolsonaro, a atriz Regina Duarte, também tinha contrato com a Globo. “Tratando os artistas assim, imagino como a Receita lidará com a nova secretária de Cultura, que recebeu por décadas como PJ na Globo”, diz.
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