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Saúde Ventilar ambientes é mais importante do que limpar as compras

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O terceiro morador do RS infectado viajou ao Rio de Janeiro. (Foto: Reprodução)

A chance de o contato de uma pessoa com uma superfície contaminada pelo coronavírus resultar em uma infecção é menor que 1 em 10 mil, segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças, agência de saúde pública dos Estados Unidos. No entanto, o órgão destaca a importância de priorizar ambientes ao ar livre ou com a maior ventilação possível.

A agência atualizou neste mês as informações sobre transmissão do coronavírus por superfícies e reconheceu que o risco é baixo — uma constatação que alguns pesquisadores vêm apontando desde o ano passado.

“É possível que as pessoas sejam infectadas pelo contato com superfícies ou objetos contaminados, mas o risco é geralmente considerado baixo.”

Segundo o CDC, o risco relativo de transmissão do SARS-CoV-2 por superfície “é considerado baixo em comparação com contato direto, transmissão por gotículas ou transmissão aérea”.

O risco de contágio pelo ar varia muito, dependendo de fatores como quantidade de pessoas, ventilação, tempo de exposição e uso de máscaras adequadas.

A atualização da agência dos EUA é o mais recente episódio do debate sobre o grau de importância dado à higienização de superfícies durante a pandemia, em comparação a outras medidas preventivas.

Em 2020, ao mesmo tempo em que o coronavírus começou a se espalhar, o hábito de lavar todas as embalagens logo depois de fazer as compras no mercado se popularizou. A orientação de limpeza dos produtos reflete a tentativa de evitar a contaminação quando alguém toca uma área ou objeto contaminados e depois leva a mão ao rosto.

No entanto, conforme os cientistas foram conhecendo melhor o comportamento do vírus, muitos especialistas começaram, ainda em meados de 2020, a alertar sobre o que consideravam um foco exagerado na transmissão por superfície contaminada, enquanto os cuidados com transmissão pelo ar ficavam em segundo plano.

A epidemiologista Adélia Marçal dos Santos, especialista na dinâmica de transmissão de doenças infecciosas e professora de Medicina da Universidade Municipal de São Caetano do Sul, diz que “uma coisa que dificultou muito a contenção da doença no mundo inteiro foi a dificuldade de admitir a transmissão aérea do vírus”.

Foi em julho de 2020 que a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu que havia evidências de que o coronavírus podia se espalhar por minúsculas partículas suspensas no ar e que a transmissão aérea não podia ser descartada em ambientes lotados, fechados ou mal ventilados.

O CDC atualizou em outubro de 2020 suas diretrizes sobre os tipos de transmissão do coronavírus e passou a incluir os aerossóis, considerando que a transmissão pode ocorrer pelo ar. Esse entendimento é importante, segundo os especialistas, exatamente para destacar a importância de evitar locais com ventilação ruim ou com muitas pessoas aglomeradas.

No Brasil, a página do Ministério da Saúde atualizada em abril de 2021 menciona, sem entrar em muitos detalhes, que o coronavírus “é transmitido principalmente por três modos: contato, gotículas ou por aerossol”.

“Teatro da higiene”

A expressão teatro da higiene (usada primeiro em inglês: hygiene theater) virou o símbolo das situações em que medidas insuficientes ou ineficazes dão uma falsa sensação de segurança em relação ao combate ao coronavírus.

O termo foi usado em um artigo do jornalista Derek Thompson, na revista The Atlantic, em julho de 2020, no qual o autor argumenta que “o teatro de higiene pode retirar recursos limitados de objetivos mais importantes”. A matéria descreve ações como a simples limpeza de cardápios em restaurantes e a desinfecção de assentos e paredes no metrô de Nova York.

Imagine um estabelecimento com funcionários fazendo a desinfecção de superfícies com alguma frequência, mas sem medida alguma para garantir uma boa ventilação do local ou para exigir o uso de máscaras apropriadas. Essa é a descrição de uma situação que poderia dar a falsa sensação de segurança, segundo o engenheiro biomédico Vitor Mori, membro do grupo de pesquisadores Observatório Covid-19 BR.

“O teatro da higiene é o ato de desinfetar tudo o tempo todo. Porque é algo mais concreto, visual… Vemos que algo está sendo feito e isso nos dá uma falsa sensação de conforto e de segurança”, diz Mori.

O que ele recomenda, no entanto (depois da dica número um, que é “fique em casa o máximo que conseguir”), é que as pessoas prestem mais atenção em medidas como: priorizar ambientes ao ar livre (ou com a maior ventilação possível), fazer distanciamento físico e usar boas máscaras, bem ajustadas ao rosto.

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