Sexta-feira, 13 de Dezembro de 2019

Porto Alegre
Porto Alegre
20°
Fair

Mundo Com medo, alunos chineses deixam Hong Kong

Aulas canceladas e reação ao mandarim levam alunos a retornarem à China continental. (Foto: Divulgação)

Quando fala sobre os protestos em Hong Kong, Lynne não consegue esconder a frustração. Ao decidir se mudar para a cidade em 2018 para cursar mestrado em Contabilidade na Universidade Batista de Hong Kong, a estudante natural da província de Fujian, no Sudeste da China, via a trajetória acadêmica como óbvia. Graduada em Finanças após uma longa temporada vivendo em Macau — cidade administrada sob a mesma política de “um país, dois sistemas”  —, ela esperava encontrar na antiga colônia britânica o passaporte para uma carreira globalizada.

“Os últimos cinco meses prejudicaram muito minha rotina de estudos”, diz a estudante. “Não consigo me concentrar, o campus deixou de ser um lugar seguro. Mesmo no cotidiano, eu passei a programar meus deslocamentos na cidade tentando prever se o metrô funcionará ou não.”

Desde o início da semana passada, porém, o que eram inconvenientes rotineiros se transformaram em motivo de incerteza sobre a vida acadêmica e profissional. Na terça, Lenny se juntou a centenas de estudantes da China continental que deixaram a cidade evacuados pela fronteira com a província de Guandong. Aulas foram canceladas em várias instituições de ensino, a maioria dos campi está fechada e não há informações sobre quando a rotina acadêmica será normalizada.

A medida segue uma nova escalada de violência após a morte, em 8 de novembro, de Chow Tse-lok, estudante de 22 anos da Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong. Segundo manifestantes, Tse-lok caiu do parapeito de um estacionamento enquanto tentava fugir de bombas de gás lacrimogêneo lançadas pela polícia. Autoridades locais e a mídia estatal chinesa negaram a versão, apontando que imagens do circuito interno de TV do estabelecimento comprovam que o estudante sofreu um ataque cardíaco.

Desde então, pelo menos dois outros atos violentos graves foram registrados na cidade. No dia 11, manifestantes atearam fogo em um homem que gritava palavras de ordem em apoio a Pequim. No dia 14, a rede de televisão Phoenix TV reportou o falecimento de um senhor de 70 anos, alegadamente após ser atacado com tijoladas enquanto descansava depois do almoço. O superintendente sênior do Departamento de Crimes dos Novos Territórios do Norte de Hong Kong, Chan Tin-chu Hio, disse que a polícia investiga o caso como assassinato.

“Já não havia mais como eu continuar na cidade. Embora não tenha sido agredida fisicamente, esses protestos me trouxeram consequências psicológicas. Em mais de uma ocasião, precisei confrontar estudantes que espalhavam panfletos ofensivos incentivando a violência contra colegas da China continental. Passei a temer falar em mandarim e isso me envolveu em problemas”, afirma Lynne, se referindo às diferenças ao idioma mais falado na cidade, o cantonês.

Mestrando em Gestão de Investimentos na Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong, Jacky, que também pediu a omissão do seu sobrenome, se recusa a deixar a cidade mesmo com os clamores insistentes dos pais. Ele se diz indignado com manifestantes que “buscam liberdade enquanto privam os outros de serem livres” e considera “irônico” que chineses “tenham de escapar de uma cidade que lhes pertence”.

“Minha opinião sobre as pessoas daqui mudou bastante. Moro na cidade há quatro anos e sempre considerei os honcongueses racionais e educados. Agora vejo pessoas que se graduaram comigo tomando atitudes completamente irracionais. Hong Kong pra mim se tornou uma cidade para ganhar dinheiro e ir embora.”

A intensificação dos protestos tem testado os limites do governo central. Pequim, porém, permanece cautelosa quanto a uma intervenção militar para coibir os protestos. Embora legalmente previsto na Lei Básica da cidade, o emprego de tropas do Exército da Libertação Popular apenas será ativado em caso de um evento violento de grandes proporções, fontes oficiais disseram reservadamente ao jornal O Globo.

Voltar Todas de Mundo

Compartilhe esta notícia:

Os 12 países da América Latina tem uma queda de presidente a cada dez meses
Saiba o que as câmeras do iPhone 11 têm de especial
Deixe seu comentário
Pode te interessar