Sexta-feira, 17 de Janeiro de 2020

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Colunistas O verão e a língua

O verão vem aí. Ele pede corpo esbelto e músculos firmes. Gordurinhas aqui e ali? Nem pensar. Xô! Vale até se submeter ao bisturi. Não faltam cirurgiões nem mágicas. A língua segue a mesma receita. Quer ser enxutinha. Sabe que, na era da internet, imperam duas leis. Uma: menor é melhor. A outra: menos é mais. Que tal entrar na onda? É fácil. Basta conjugar o verbo faxinar. Ele rima com cortar. Corte. Corte. Corte. O quê?

Trapalhão

Os possessivos seu e sua são aparentemente inofensivos. Mas causam senhores estragos à frase. Sabe por quê? Às vezes, dão duplo sentido à declaração. Você diz uma coisa. A pessoa entende outra. Ou fica confusa. É o caso do diretor que tinha o secretário que os chefes pedem a Deus.

Ele chagava entes da hora. Saía depois. Almoçava ali mesmo, ao lado do computador. De repente, não mais que de repente, mudou o comportamento. Passou a fazer o que todos fazem: obedecer ao horário.

Intrigado, o diretor contratou um detetive para decifrar o mistério. Dois dias depois, o espião trouxe a resposta:

— Seu servidor sai ao meio-dia, pega o seu carro, vai até sua casa, namora sua mulher, come a sua comida, bebe o seu vinho, fuma seus charutos cubanos e volta ao trabalho.

O diretor, satisfeito, achou tudo normal. O investigador pediu licença para mudar o pronome. Eis o que deu:

— Seu servidor sai ao meio-dia, pega o teu carro, vai até tua casa, namora tua mulher, come a tua comida, bebe o teu vinho, fuma teus charutos cubanos e volta ao trabalho.

Outro exemplo

O presidente garantiu aos parlamentares que o seu esforço levaria à aprovação das reformas.

Esforço de quem? Dos parlamentares? Do presidente? A frase é ambígua. Permite dupla leitura. O que fazer? Partir para o troca-troca. Substituir seu pelo pronome dele:

O presidente garantiu aos parlamentares que o esforço dele (ou deles) levaria à aprovação das reformas.

Xô! Xô! Xô!

Certas palavras rejeitam o possessivo. Aproximá-los é briga certa. Evite confusões. Não o use com:

1. as partes do corpo: Na batida, quebrou a perna (nunca sua perna). Arranhou o rosto. Fraturou os dedos.

2. os objetos de uso pessoal: Calçou os sapatos (não seus sapatos). Pôs os óculos. Vestiu a saia.

3. as qualidades do espírito: Perdeu a consciência (não sua consciência). Mudou a mentalidade. Alterou o comportamento.

Dica: em 90% dos casos, o possessivo é desnecessário. Se é desnecessário, sobra: Paulo fez a (sua) redação. Pegou o (seu) jornal. Perdeu as (suas) chaves.

É isso. Escrever é cortar. Ou trocar.

Lixo na lixeira

Um texto limpo não cai do céu. Nasce de trabalho, humildade, desapego. E muita faxina. Como diz o outro, 10% de inspiração e 90% de transpiração.

A escrita agradável tem muitos segredos. Um deles: fugir do artigo indefinido. Um, uma, uns, umas fazem estragos. Tornam o substantivo impreciso e molengão. Mais ou menos como Sansão sem cabelo. Quer ver?

Nove jovens morreram em (um) baile em Paraisópolis.

Deus é (um) poder supremo.

(Um) outro bate-boca ocorreu ontem entre o marido e a mulher.

Falava com (um) tal cuidado que parecia medir as sílabas.

Para que os artigos? Só pra estragar a frase. Eles detonam o esforço de planejamento e redação. Fora!

Leitor pergunta

O uso do “particularmente” na expressão “eu, particularmente, acho” não sobra? — Sandro Alberto, Santos.

Sobra. O eu já é particular. Sabe o que mais? O acho também excede. Com ele, o enunciado vira achismo. Fica fraco, sem seriedade. Experimente começar a frase sem o “eu acho que”. Ela fica enxuta e convincente: (Eu acho que) O país vai crescer se forem aprovadas as reformas modernizadoras.

Viu? Opinião é uma coisa. Achismo, outra.

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