Sábado, 11 de Julho de 2020

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Tito Guarniere A cidadania e as armas

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“Eu quero todo povo armado” (Jair Bolsonaro). (Foto: Marcos Corrêa/PR)

Eu quero todo povo armado” (Jair Bolsonaro). 

Os homens, as mulheres, quando decidem ter um filho, têm perfeita noção da grande aventura e enorme responsabilidade – um longo itinerário de alegrias, mas tantas vezes penoso de angústias e aflições.

É a saga humana por excelência. Quando queremos um filho esquecemos as horas sombrias que advirão, os perigos, as inevitáveis agruras. Sem medo, encaramos os riscos da decisão transcendental – o invencível instinto de preservação da raça.

Os pais sabem muito bem o que desejam para o filho. Querem que ele nasça perfeito, com saúde. Depois, que tenha uma infância feliz, cercado dos cuidados paternos – a experiência fascinante e inspiradora de vê-lo crescer, dar os passos iniciais, balbuciar as primeiras palavras.

Desejam que ele venha a ser um filho amoroso e quando entrar na escola, seja um aluno estudioso e aplicado. Que momento feliz, descobrir que o filho tem muitos amigos de olhar limpo! É uma bênção saber que o filho é benquisto na vizinhança, na escola, na turma.

Quando ele sair para o mundo, quando começar a ganhar a vida com o próprio esforço, então os pais rezarão para que ele seja honesto e trabalhador. E se não for pedir muito, que ele tenha talento e habilidade no seu ofício, que seja dedicado e aplicado no seu trabalho.

Será motivo de orgulho saber que ele, o filho, respeita o próximo – os idosos, os portadores de deficiência, os desvalidos da sorte. Saber que ele não se deixa contagiar pelos preconceitos de gênero, classe social, raça ou orientação sexual. Que se defende e não baixa a cabeça diante da afronta, da injustiça.

Ah, sonham os pais, que ele, o filho, tenha a compreensão devida da lei imutável: aos momentos de euforia, se seguem eventos danosos, que desnorteiam e entristecem. Ninguém ganha sempre. E que diante dos imponderáveis, ele tenha força para reagir, superar e vencer – partir para outra. Que ele tenha paciência, porque depois da ventania vem a brisa suave, o calor ameno que aquece a alma antes temerosa.

Será auspicioso que ele, diante dos tropeços e das quedas, não fique a se lamuriar da vida, e menos ainda culpar os outros – o “sistema”, o governo, o patrão. Que ele seja capaz – no infortúnio, nos desapontamentos, nas armadilhas do azar – de enfrentar as dificuldades, tomar as rédeas, restaurar as forças e seguir na lida.

E que tal se ele fosse capaz de alternar prudência e ousadia, na dose certa, conhecer os limites, ler os cenários, olhar cada trecho da grande estrada com um sentimento de confiança e um olhar de esperança?

É raro alguém reunir todas essas condições (e outras mais) ao mesmo tempo, mas algumas delas bastam para uma vida virtuosa.

Mas em momento algum da trajetória será necessário ou terá qualquer valor o porte de armas. Desarmado, sem ferir ninguém, sem gastar uma bala e disparar um tiro, ele, o filho, poderá cumprir com mérito os deveres de cidadão. Sem armas, poderá alcançar uma vida plena, útil e produtiva, poderá exibir a feição serena dos homens justos. Sem armas, terá realizado os melhores sonhos dos seus pais.

 

 

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