Domingo, 31 de Maio de 2020

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Colunistas Como disse Freud, “recomendo encarecidamente o AI-5 para todos!”

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A coluna de hoje tem como mote o parafraseio de uma frase escrita por Freud ao final de sua “espontânea declaração” de que sua filha não havia sido maltratada pela Gestapo: “recomendo encarecidamente a Gestapo para todos”.

A frase posta ironicamente por Freud à “declaração” é autoexplicativa e ajuda a entender o que acontecendo no Brasil. Por isso volto ao conto Teoria do Medalhão, de Machado de Assis. Nunca esteve tão atual, mormente para confirmar a frase de Umberto Eco, de que as redes sociais acordaram os idiotas ou algo como “os idiotas perderam a timidez”. Pior, estão se tornando maioria.

As passeatas pedindo o AI-5 e o fechamento do STF e do FGTS (vejam o nível da anta) fariam Machado corar e, ao mesmo tempo, escrever vários contos. Janjões de todos os tipos apareceram.

“Janjões de todo o Brasil: uni-vos. Nada tendes a perder a não ser a vossa burrice”. Para lembrar, Janjão, ao completar 21 anos, recebeu os conselhos de seu pai, para que se tornasse um Medalhão.

Diz o pai para Janjão: Você tem os atributos para ser um Medalhão. E assim vai se dar bem na vida. Dirá coisas banais, pensará pouco, lerá nada. E será um aproveitador. Um empresário de si mesmo.

E continuou: O verdadeiro medalhão tem outra política. Longe de inventar um Tratado científico da criação dos carneiros, compra um carneiro e dá-o aos amigos sob a forma de um jantar, cuja notícia não pode ser indiferente aos seus concidadãos. Ser medalhão foi o sonho da minha mocidade; faltaram-me, porém, as instruções de um pai.

E o pai seguiu. Você parece dotado da perfeita inópia mental, conveniente ao uso deste nobre ofício. Algumas coisas você pode fazer, outras não. O bilhar é excelente. Se aconselho excepcionalmente o bilhar é porque as estatísticas mais escrupulosas mostram que três quartas partes dos habituados do taco partilham as opiniões do mesmo taco.

O passeio nas ruas, mormente nas de recreio e parada, é utilíssimo, com a condição de não andar desacompanhado, porque a solidão é oficina de ideias, e o espírito deixado a si mesmo, embora no meio da multidão, pode adquirir uma tal ou qual atividade.

As livrarias, ou por causa da atmosfera do lugar, ou por qualquer outra, razão que me escapa, não são propícias ao nosso fim. Mas você pode até ir. Vá lá falar do boato do dia, da anedota da semana, de um contrabando, de uma calúnia, de um cometa, de qualquer coisa. Com este regime, durante oito, dez, dezoito meses – suponhamos dois anos –, reduz o intelecto, por mais pródigo que seja, à sobriedade, à disciplina, ao equilíbrio comum.

“E, meu filho, não trato do vocabulário, porque ele está subentendido no uso das ideias; há de ser naturalmente simples, tíbio, apoucado, sem notas vermelhas, sem cores de clarim…”

Sim, Janjão, você pode participar da política. Pode pertencer a qualquer partido, liberal ou conservador, republicano ou ultramontano, com a cláusula única de não ligar nenhuma ideia especial a esses vocábulos, e reconhecer-lhe somente a utilidade do scibboleth bíblico.

Quanto à matéria dos discursos, tem à escolha: – ou os negócios miúdos, ou a metafísica política, mas prefira a metafísica.

Outro conselho: proíbo-lhe que chegue a outras conclusões que não sejam as já achadas por outros. Fuja a tudo que possa cheirar a reflexão, originalidade etc., etc.

Fechando: “Que é isto? – Meia-noite. – Meia-noite? Entra nos vinte e dois anos, meu peralta; está definitivamente maior. Vamos dormir, que é tarde. Rumine bem o que lhe disse, meu filho. Guardadas as proporções, a conversa desta noite vale o Príncipe de Machiavelli. Vamos dormir”.

Pronto. Por certo, quem pede o AI-5 e o fechamento do parlamento e do STF deve ter recebido conselhos do pai do Janjão! Por isso, o título da coluna: Recomendo encarecidamente o AI-5 para todos!

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