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Edson Bündchen Em busca de sentido

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Parecia apenas mais um dia na rotina nada convencional do catarinense Jesse Koz, que junto com Shurastey, seu cão inseparável, tentava chegar ao Alasca com seu fusca 1978, numa estrada qualquer do estado americano do Oregon, quando acabou encontrando a morte, junto com seu fiel companheiro de jornada, num desses acidentes estúpidos que estão sempre à espreita. Compartilhando sua aventura pelas redes sociais desde que saiu de Balneário Camboriú-SC, em 2017, Jesse abriu mão de um emprego que julgava enfadonho e, para surpresa dos amigos e familiares, saiu América afora buscando, nas palavras dele, provar que “a vida é mais do que ficar esperando”. Há muitas histórias de pessoas que largam tudo e viajam pelo mundo em busca de aventura e até dinheiro, mas há mais do que isso. A junção de um sonho destemido com a morte prematura, transmitida ao vivo para milhares de seguidores pela Internet, confere ao drama vivido por Jesse cores e tons que mexem com um imaginário já bastante sensível a um mundo teimosamente imprevisível, que se transforma num ritmo capaz de abalar até os mais renitentes.

O fim trágico dessa história, entretanto, não se confina a um fato isolado, mas se conecta a um outro fenômeno que o psicólogo organizacional Anthony Klotz chamou de “A grande renúncia”, um realinhamento do mercado de trabalho no qual parcela importante de trabalhadores, por diversos motivos, está largando seus empregos. O fim da pandemia fez com que muitas pessoas repensassem suas vidas. Muitos perceberam que desejam mais tempo com suas famílias; outros notaram que seu trabalho não é mais tão essencial quanto imaginavam, ou querem agora empreender, buscar novos horizontes. Enfim, há toda uma gama de repercussões psicossociais em curso. Além disso, o trabalho em home office, a exaustão pelo excesso de tarefas e a sensação de “estar disponível” 24 horas por dia estão também entre os principais fatores que ajudam a explicar o nível altíssimo de demissões voluntárias ocorridas em todo o mundo.

Dentre essas várias razões para a ocorrência da “grande renúncia” contudo, a busca por maior sentido existencial em confronto com empregos muitas vezes despidos de significado, talvez seja a mais crítica, e está chamando a atenção, não apenas de estudiosos, mas de empresários que encontram um novo desafio para atrair e manter seus colaboradores. A compreensão da inelasticidade do tempo, em parte explicada pelo frenesi das redes sociais, a consciência de que o aprendizado, em suas múltiplas formas experenciais, opera como um contraponto à estabilidade, o aumento da vida ativa das pessoas e um quadro de mudança estrutural e psicológica do espaço laboral, prometem reconfigurar o mundo do trabalho tal como o conhecemos.

Nessa perspectiva, assistimos a emergência de um novo arcabouço psicológico que passa a reger as manifestações intraorganizacionais, não mais somente sob o império da hierarquia. Aflora, gradualmente, um ambiente que pressiona por um maior encorajamento da contestação, do contraditório, das revelações das diversidades, do entendimento da riqueza polifônica que invade a comunicação, uma vez afastado o medo de se perder o emprego, dado que isso está a ocorrer de forma voluntária, conforme tão bem demonstram as estatísticas de abandono do trabalho hoje identificadas. Por assim dizer, estaríamos diante de um recado tácito aos empregadores para que avancem muito além de um caricato quadro de valores pendurado na sala de reuniões do comitê executivo e passem a construir novas práticas gerenciais, mais inclusivas, cooperativas e transparentes, e que soterrem de vez a noção de comando e controle. Sem essa compreensão e sem esse novo modo de agir por parte da alta direção, legiões de trabalhadores continuarão saindo de seus empregos em busca de maior sentido para as suas vidas, assim como fez Jesse Koz, ao declarar “Eu vivia uma vida que não queria viver, já que a vida que eu queria viver eu não poderia viver, porque eu vivia dentro de um shopping vendendo roupas para desconhecidos”.

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