Sexta-feira, 18 de Setembro de 2020

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Ciência Guerra espacial: a disputa entre a Coca-Cola e a Pepsi fora da Terra

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Os astronautas Tony England (esquerda ) e Karl Henize (direita) provam os refrigerantes. (Foto: Nasa)

Em 1985, a Nasa enviava à órbita da Terra o ônibus espacial Challenger pela oitava vez. Foi quando o astronauta John-David Bartoe viajou na missão STS-51-F, a primeira de sua carreira, para realizar experiências científicas na órbita da Terra – e foi nesta ocasião que a tripulação teve que beber refrigerante no espaço. Agora, 35 anos depois, Bartoe reflete sobre a importância do experimento e sua postura na época.

O astronauta não estava muito interessado nessa tarefa, que mais parecia apenas uma competição entre marcas. Os astronautas tinham muitos experimentos fascinantes para realizar nas áreas das ciências biológicas, física do plasma, astronomia, astrofísica de alta energia, física solar, e muitas outras. Mas também foi preciso experimentar o conteúdo das latas desenvolvidas pela Coca-Cola e Pepsi-Cola especialmente para o consumo no espaço.

Na época, Bartoe atuava como especialista de carga, mas isso não o impedia de participar de alguns experimentos científicos com seus colegas. Beber refrigerante de cola foi um deles, apesar do seu desinteresse. “Achei que era algo frívolo e depreciava a ciência da missão. Não gostei nem um pouco”, disse Bartoe recentemente. E ele não estava de todo errado: a mídia já apelidava o experimento de “guerra espacial das colas”, o que de fato podia dar a impressão de que ciência espacial se transformaria em uma competição comercial.

“Não vou fazer isso, acho que é uma péssima ideia”, argumentou, na época. Seus colegas de tripulação, entretanto, se revezavam para testar as latas de Coca ou Pepsi durante o tempo livre. Bartoe se manteve afastado da experiência, mas recentemente afirmou em uma entrevista que isso “foi realmente uma coisa estúpida” de sua parte.

A experiência

Tudo começou quando a Coca-Cola pediu à Nasa para testar uma latinha de refrigerante a bordo do ônibus espacial. Ela seria desenvolvida especialmente para ser usada no ambiente de microgravidade, onde os líquidos podem voar facilmente e até mesmo prejudicar o interior da nave.

A empresa precisava então criar um mecanismo que extraísse o refrigerante para fora do recipiente, mas apenas quando o astronauta quisesse. A Coca-Cola investiu cerca de um quarto de milhão de dólares para adaptar sua lata de alumínio. A “versão espacial” continha um saco plástico laminado cheio de refrigerante e uma bexiga pressurizada com dióxido de carbono para impulsionar a bebida. Então, ela foi tampada com uma válvula de metal e um bico para beber.

Quando a Pepsi ficou sabendo que a Coca-Cola estava indo ao espaço, ela pediu à Nasa para ser incluída na missão também. A agência concordou, desde que a Pepsi pudesse desenvolver e entregar um recipiente a tempo para o lançamento. Porém, o tempo parece ter sido curto. A Pepsi modificou um projeto existente que, segundo ela, custou US$ 14 milhões para ser desenvolvido, e se assemelhava às embalagens de chantilly.

A empresa também usou uma bolsa cheia de dióxido de carbono para empurrar o refrigerante para fora, mas, em vez de ser pré-pressurizado, havia produtos químicos para produzir o gás. De acordo com Bartoe, a ideia da Pepsi não foi das melhores.

O ex-astronauta conta que, inicialmente, tratava-se de um “projeto de pesquisa muito sério para a Coca-Cola”. A ideia da empresa era “ver se poderiam desenvolver uma lata que pudesse dispensar uma bebida carbonatada no espaço como se você estivesse bebendo aqui no chão”, e o resultado foi uma lata que Bartoe chama de “alta tecnologia”.

Já o trabalho da Pepsi foi feito “no último minuto com muita pressa”, de acordo com o relato. “Não era tão alta tecnologia e era mais como uma lata de chantilly com uma pequena aba branca inclinada para o lado”, disse Bartoe, que hoje é astrofísico. Na época, a NASA chamou o experimento de “Avaliação de Recipientes de Bebidas Carbonatadas”, traduzindo livremente, para se livrar da conotação comercial que a mídia propagava – algo que incomodava toda a tripulação.

Bolhas de gás presas

A tripulação da missão STS-51F – exceto Bartoe – experimentou um total de seis latas de refrigerante (três de cada marca) e manteve os resultados da avaliação em privado até a primeira coletiva de imprensa pós-voo, ocorrida em 14 de agosto de 1985, uma semana após o pouso de volta na Terra.

Os refrigerantes estavam em temperatura ambiente, já que não havia uma geladeira a bordo do ônibus espacial Challenger. Embora o ideal fosse que estivessem gelados, esse não foi o grande problema. “O problema era com as bebidas carbonatadas” mesmo, contou Tony England, que também estava em sua primeira missão espacial naquela ocasião.

Nas palavras de England, “quando você abre uma garrafa na Terra, as bolhas sobem e vão embora. Bem, como você pode imaginar, se não há gravidade, as bolhas não sobem”. Então, dá pra imaginar o que acontece. “Lá está você com o estômago cheio de bebida gaseificada, com os gases que meio que ficam ali, confortavelmente”, relata.

Apesar desse inconveniente, as latas pareciam funcionar como planejado. “Ambas as latas parecem funcionar bem”, disse England. “Quando os abrimos, eles não explodiram nem nada do gênero. E a bebida estava imediatamente disponível após a tentativa de beber”. No entanto, a lata de Pepsi dispensava um líquido mais espumoso.

E a vencedora foi

A Coca-Cola declarou vitória na “guerra espacial das colas”, argumentando que a equipe testou sua lata antes de provar o produto da marca rival. “A Coca-Cola, primeira opção em refrescos em todo o mundo, é hoje o primeiro refrigerante degustado no espaço”, afirmou a empresa em anúncio na época.

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