Segunda-feira, 01 de Março de 2021

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Edson Bündchen Iludidos pela esperança

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Finais de ano são bastante convidativos para reflexões sobre o amanhã e balanços acerca do que passou. Enquanto cidadãos, almejamos um futuro no qual possamos nos orgulhar de morar num País socialmente justo, desenvolvido de forma sustentável, seguro para os seus habitantes, com uma educação inclusiva e de bom nível, além de um sistema de saúde público de excelente qualidade. Não é, contudo, aquilo o que vemos no Brasil. Pergunte a qualquer político sobre as três funções essenciais que espelham o legítimo papel do Estado. Sem muito esforço, ele lhe dirá que a segurança, a educação e a saúde são as áreas nas quais os melhores recursos e esforços devem ser dedicados. Sob essa perspectiva, um olhar crítico nos aponta que estamos falhando fragorosamente nessa missão elementar. A atual situação de caos na saúde pública, violência nas cidades e no trânsito, e educação de péssima qualidade, demonstram que precisamos muito mais do que esperança para um futuro melhor.

O filósofo Nietzsche, famoso por seus pendores niilistas, provocativamente defendia que “enquanto houver esperança não haverá solução”, convidando-nos para o abandono das ilusões e o enfrentamento da crueza dos fatos. Postergadores contumazes, cultivamos em nossas mentes algemas que nos aprisionam ao já conhecido e confortável. O novo nos assusta e o hábito arraigado em nosso comportamento cotidiano contém sulcos profundos dos quais nos é penoso fugir. De modo geral, também apresentamos uma conduta politicamente apática, para não dizer omissa, a considerar o conjunto de mazelas graves que nos afligem sem que nossa indignação vá além de alguns resmungos envergonhados. Nosso acanhamento é constrangedor, muito longe ainda do ânimo e tenacidade necessários para mudanças efetivas. Resignados, condescendemos com a frase “De onde menos se espera, daí é que não sai nada”, reveladora de parte de nossa crônica indolência, proferida pelo impagável Barão de Itararé.

Substantivar a esperança está mais para atitudes efetivas do que para arroubos imaginários, sendo essencial contar com desprendimento e coragem para dar-lhe consequência. Sem desconsiderar as conjecturas pessoais a que somos submetidos pela cultura, pela própria sociedade e por nosso contexto único, é possível, e cada vez mais necessário, trilhar um caminho temperado por mais arrojo e fé em nós mesmos. As recompensas para quem cruzar a linha da mesmice e do conformismo podem ser gratificantes. Novos comportamentos, e uma vida mais consciente e plena de sentido, projetam também uma visão mais ajustada do nosso papel na sociedade, superando as amarras que nos vinculam à passividade e à negligência. Não é incomum vermos o sucesso das pessoas atrelado à ousadia, à determinação, ao ímpeto em adentrar ao inédito. Isso também é verdadeiro para uma cidadania mais plena. Passar a existir foi obra do acaso; viver uma vida sem cor por opção é a verdadeira miséria.

É preciso, sim, mais do que esperança. Há um enorme espaço para microrrevoluções, iniciativas que independem de terceiros, do Governo ou de quem quer que seja. Arrumar a própria cama, tratar melhor o vizinho, ser mais solidário com quem está próximo, estudar e educar bem os filhos, cuidar de si mesmo e manter um senso ético consistente, muito provavelmente será mais eficaz do que boas intenções, por melhores que sejam. Esse pragmatismo quase estoico poderá engendrar uma transformação real da sociedade. A ilusão de que somos abençoados por Deus e bonitos por natureza é tão equivocada quanto o “complexo de vira-latas”. Somos, fundamentalmente, aquilo que ousamos sonhar e realizar. Se, por acaso, você encontrar um político pregando austeridade por aí, pergunte o que ele fez para diminuir as despesas do seu próprio gabinete. Você poderá ficar surpreso de como esse pequeno gesto sinalizará que a sua esperança adquiriu um novo sentido, um novo significado. Não podemos mais continuar iludidos pela esperança.

 

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