Segunda-feira, 01 de Março de 2021

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Edson Bündchen O coro dos lúcidos e o rancor dos insensatos

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O mundo tem enfrentado uma onda de negacionismo com repercussões muito graves sobre temas de elevada importância. São recuos extemporâneos e inadmissíveis, agora estimulados pelo instável ambiente da pandemia, que se revelou um terreno fértil para a proliferação desse abominável fenômeno. O comportamento antivacina, que permitiu a volta do sarampo, hoje também ameaça a efetividade do processo de combate à Covid-19. Essa espécie de balaio de teses esdrúxulas, muitas até inofensivas, outras patéticas, mas algumas extremamente perigosas, devem ser antes compreendidas em sua gênese, para que se mobilizem formas e esforços no sentido de combater implacavelmente esse flagelo. A lucidez e a ciência são as armas apropriadas contra esse comportamento que desassossega, ofende e intriga todos aqueles que lutam para preservar a sensatez e o equilíbrio, num momento tão difícil para a saúde e a preservação da vida das pessoas, em meio à maior crise sanitária deste século.

Negacionistas sempre existiram, mas foi a ascensão da moderna sociedade que permitiu detectar melhor as evidências de sua atuação, e identificá-los enquanto protagonistas do obscurantismo. A rejeição aos fatos e uma desconfiança quase mórbida em relação aos avanços científicos, sempre compuseram o repertório dos arautos do atraso. A revolta da vacina, ocorrida no Rio de Janeiro, em 1904, é ressuscitada mais de 100 anos depois, com matizes e razões ainda mais indesculpáveis do que àquela época. Chocante também foi e ainda é a negação do holocausto, onde o próprio senso de humanidade é gravemente abalado. Negar as consequências da degradação ambiental e ignorar todas as evidências em relação ao futuro do planeta, é também obra desse pensamento nefasto, cujas convicções não são apenas um cárcere em si mesmo, mas uma ameaça concreta ao conjunto da sociedade

Ao negar a realidade como uma maneira de confrontar os eventos desconfortáveis, ultrajando em muitos casos um conjunto enorme de evidências, revela-se bem mais do que uma visão cética do mundo. Essa busca por uma verdade conveniente ao seu universo particular, pode estar vinculada a alguma crença religiosa, autointeresse, ou simplesmente uma autodefesa contra determinado distúrbio psicológico. Mais preocupante, todavia, é a cegueira que estiver simplesmente reverberando a estupidez do indivíduo. Nesse caso, a patologia adquire contornos de voluntarismo inconsequente, no qual a leitura inadequada da realidade deriva do desconhecimento da própria ignorância.

Esse desatino, dotado de pendores intolerantes, desprovido de uma visão factual clara, e impulsionado por rancores inconfessáveis, muitas vezes alimentados por um ódio difuso contra tudo e contra todos, faz emergir a figura do negacionista. Antes circunscrito a um espaço limitado para a propagação de suas convicções obtusas, hoje o largo espectro da internet dá asas e turbina a torrente de bobagens proferidas pelos negacionistas aos quatro cantos do planeta, muitas vezes capturando a atenção de outros tantos incautos que se juntam para formar uma falsa narrativa, uma pseudoverdade que desafia a lógica, o conhecimento já consagrado e o bom senso. Enquanto restrito ao terraplanismo ingênuo, pouco risco existe. O mesmo não se pode afirmar, caso a negação da verdade adquira contornos políticos, buscando reescrever a história sob uma nova roupagem ideológica, a exemplo de alguns propósitos que sustentam a atual discussão sobre a vacina contra a Covid-19.

Somente com um permanente debate, enfrentando de modo vigoroso essa sistematizada ode à mentira, é que a verdade dos fatos será protegida e fortalecida. A evolução do conhecimento que nos trouxe até aqui sempre enfrentou percalços, muitos deles pagos com a própria vida de homens e mulheres, mas nenhum se afigurou tão insidioso e abrangente como essa tentativa negacionista de contestar e reescrever a história dos próprios fundamentos da ciência e do saber.

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