Quarta-feira, 01 de Abril de 2020

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Brasil Irmã de homem que vive em um buraco há 25 anos diz que ele está feliz lá dentro

Antônio Francisco Calado vive em um buraco instalado em uma pequena propriedade rural de Nova Roma, no norte de Goiás, desde 1990. (Foto: Reprodução)

Por inúmeras vezes, a dona de casa Raimunda Tereza Calado, 37 anos, tentou tirar o irmão, Antônio Francisco Calado, 57, do buraco onde ele vive desde 1990, em uma pequena propriedade rural de Nova Roma, no norte de Goiás. Mas todas elas foram em vão. A conclusão a que a mulher chegou é que é “impossível” fazê-lo sair e que é mais fácil tentar criar uma infraestrutura no local para que o ele  viva melhor. “Ele está feliz lá, daquele jeito. Sinto que se fizer isso, é capaz até dele morrer em pouco tempo e eu respeito isso. A força, eu não vou trazer ele. Cada um tem que viver como quer. O que eu desejo é dar uma condição melhor de água, alimentação e moradia”, disse  Raimunda.

Avaliação judicial. 

A situação de Calado motivou uma visita do juiz Everton Pereira Santos. O magistrado foi ao local e avaliou  a situação ao julgar procedentes dois pedidos de pensão pela morte dos pais e de interdição judicial, feitos pela irmã. Também ajudou na decisão um laudo pericial apontando que o homem que vive em um buraco tem esquizofrenia paranoide, doença mental que o fez tornou incapaz.

Demência. 

Raimunda revela que Antônio sempre morou com os pais em uma pequena chácara da cidade. Quando o pai morreu, em 2000, o homem já começou a ficar, como ela diz, “mais perturbado”. Porém, foi com o falecimento da mãe, em 2012, que a situação piorou, pois eles eram muito ligados. Segundo a dona de casa, o irmão começou a cavar o buraco há 25 anos sem nenhum motivo aparente. “Ele ia lá, cavava e voltava para casa. Mas quando terminou resolveu morar lá. Ele nunca gostou de casa. Quando vai à minha, dorme no quintal, embaixo de um pé de manga”, conta.

Como curadora de Antônio, a irmã vai administrar os dois salários mínimos mensais a que o homem agora tem direito. Além disso, ela vai ter que empregar e prestar conta dos 70 mil reais, referentes ao período retroativo. De acordo com o Poder Judiciário, o Ministério Público deve monitorar os gastos.

Ela diz que a intenção é construiu um barraco no local, mesmo que Antônio não viva nele. Outra ideia é fornecer água tratada para o irmão e alimentos com mais qualidade para que ele não consuma apenas os produtos da pequena horta que cultiva. “O que sinto por ele é amor. Faço qualquer coisa e corro atrás de tudo que estiver ao meu alcance para dar o melhor para ele”, define Raimunda.

Fantástico. 

A situação encontrada no local deixou o juiz Everton Pereira Santos intrigado e admirado. “Olha, é uma situação muito peculiar, indescritível. Ao mesmo tempo em que ele aparenta ter muita inteligência para usar técnicas na construção do buraco e manusear ferramentas, demonstra aparentes delírios, dizendo que conversa com os raios e trovões”, observou. “Ele criou um sistema para que a água da chuva não entre no buraco e ele poder utilizá-la depois. É fantástico. Quem ensinou isso para ele? “, questionou o magistrado.

A residência de Calado também impressionou o juiz. Em formato oval e com aproximadamente 8 metros quadrados, a construção tem os cômodos divididos e só é possível chegar a pé. Ao entrar, existe a sala. De um dos lados, um oratório com duas imagens de santos e do outro, o quarto, onde ele dorme sobre um pedaço de madeira com panos velhos. (AG)

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