Terça-feira, 14 de Julho de 2020

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Saúde No Brasil, apenas um em cada três pacientes graves com coronavírus sobrevive

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Mortalidade de doentes com a Covid-19 que são entubados no País é de 66%, um número alto quando comparado aos internacionais

Foto: Reprodução
Mortalidade de doentes com a Covid-19 que são entubados no País é de 66%, um número alto quando comparado aos internacionais. (Foto: Reprodução)

Apenas um em cada três pacientes graves de Covid-19 que são entubados nas UTIs (unidade de terapia intensiva) brasileiras se recupera e consegue voltar para casa. A mortalidade desses doentes é de 66%, um número muito alto quando comparado aos internacionais.

Segundo especialistas, o porcentual reflete as precariedades do sistema de saúde do País e, eventualmente, o uso indiscriminado de medicamentos sem benefícios comprovados cientificamente, como a cloroquina.

A conclusão é de um levantamento do Projeto UTIs Brasileiras, da Amib (Associação de Medicina Intensiva Brasileira) e do Epimed – uma ferramenta de análise de dados e desempenho hospitalar. A coleta de informações foi feita entre os dias 1º de março e 15 de maio em 450 hospitais em todo o Brasil, envolvendo 13.600 leitos de terapia intensiva – o que equivale a cerca de um terço das vagas para adultos nessas unidades.

Os pacientes mais graves são aqueles que estão internados em uma unidade de terapia intensiva e demandam apoio de ventilação mecânica para continuar respirando. Por isso, a mortalidade desses doentes é forçosamente alta em qualquer lugar do mundo. No Reino Unido, por exemplo, é de 42%, e, na Holanda, chega a 44%. Um outro estudo, restrito à cidade de Nova York, revelou um porcentual ainda mais alto, de 88%.

“A mortalidade geral na UTI é de 21%, entretanto, entre a população de pacientes mais graves, chega a 66%”, compara o coordenador do Projeto UTIs Brasileiras, o médico intensivista Ederlon Rezende. “Ou seja, de cada três pacientes que vão para a ventilação mecânica, apenas um sobrevive. Essa doença não é uma gripezinha.”

O também médico intensivista Jorge Salluh concorda com o colega e especula sobre as razões da mortalidade tão alta. “Este porcentual é muito alto para qualquer doença, qualquer estatística, é um número assustador”, diz.

“Eu não tenho esses dados, é uma inferência, mas o que parece é que estamos esquecendo de medidas de prevenção adotadas nas UTIs. O uso de tratamentos experimentais, como a cloroquina e outras substâncias, todas igualmente com poucas evidências, podem ser um fator. Intervenções farmacológicas não comprovadas aumentam o risco de morte por efeitos colaterais”, comenta o médico.

Os dados das UTIs são levantados a partir de questionários respondidos diariamente sobre os pacientes (como sexo e idade) e os procedimentos adotados. Os medicamentos ministrados não constam do levantamento.

“Pessoalmente, acho que o uso da hidroxicloroquina tem prejudicado nossos pacientes, principalmente aqueles que evoluem com a forma grave da doença e vão para as UTIs”, afirmou Rezende. “Mas estes dados não nos permitem afirmar isto”, completa o especialista.

A infectologista Raquel Stucchi tem opinião semelhante. “Pelos estudos com pacientes graves já publicados, sabemos que a cloroquina aumenta o risco de efeitos adversos e morte. Mas não dá para inferir isso para o Brasil enquanto não soubermos quem usou e quem não usou a droga.”

Curiosamente, essa mortalidade é similar nas unidades privadas (65%) e públicas (69%). Uma das razões pode vir do próprio perfil do universo pesquisado. Foram 322 hospitais privados e 128 públicos. Os especialistas, no entanto, levantam outras hipóteses.

“Em geral, o paciente dos hospitais privados são menos graves que os dos públicos; como a rede privada tem mais leitos disponíveis, ela é mais flexível no critério de admissão em UTIs”, explica Rezende. “Mas quando olhamos a mortalidade de um subgrupo muito específico, essa comparação é mais correta e vemos que a mortalidade é parecida.”

Os especialistas lembram que os hospitais que participam do levantamento tendem a ser os mais bem organizados, o que pode levar a um retrato mais otimista da realidade. “Temos de olhar para esses dados com a ideia de que sejam melhores do que o do nosso mundo cão, em hospitais que não estão organizados e já apresentam o sistema colapsado”, diz o especialista.

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