Terça-feira, 31 de Março de 2020

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Tito Guarniere Quadro em degradação

Presidente inicia neste sábado terceira viagem aos Estados Unidos, por sugestão de congressistas republicanos. (Foto: Carolina Antunes/PR)

Percamos a esperança, o homem não se emenda. O seu terreiro é o chulo, o escatológico. Ele precisa ferir fundo e nos causar vergonha. O instinto é incontrolável e como o vampiro ele precisa de sangue. Se ninguém o provoca, ele atravessa a rua e dá uma rasteira no primeiro que passa.

Há quem diga que tudo é medido e programado, que o estilo serve a um propósito. Não é assim. Tudo em Bolsonaro é primitivo: ele escreve as linhas tortas do seu desempenho sofrível com natural desenvoltura. Não é como Joaquin Phoenix que treinou e ensaiou para o papel: ele é o próprio Coringa. Ele é assim. Não há nada por detrás.

As ofensas que ele dirigiu à jornalista Patrícia Campos de Mello é dessa ordem de espontaneidade abjeta. Ele embala o achincalhe, como é comum, como uma marca em série, a assinatura, com o trocadilho infame, sexista e misógino: “Patrícia queria dar o furo a qualquer custo”. Trata-se de uma autoridade – a máxima do país – que deveria ser proibido para menores.

O filho Carlos, como a se gabar do pai, e para fazê-lo orgulhoso, avançou o sinal, dobrou a aposta, e da tribuna da Câmara dos Deputados caprichou no enredo. Tratando da polêmica em torno da jornalista da Folha botou para quebrar: “Em nome das mulheres, uma banana (para Patrícia)! Uma banana. Não vão nos calar. Pode gritar à vontade, mas só raspa o sovaco, senão dá um mau cheiro danado”.

E para completar o quadro em degradação, se fez acompanhar, no pronunciamento histérico, de cinco deputadas do PSL – mulheres com mandato contra a mulher jornalista, em ato explícito de misoginia.

Já o general Augusto Heleno – que nunca nos surpreende com uma fala refinada – acusou o Congresso de chantagear o Executivo na discussão do orçamento.

O governo Bolsonaro tem uma visão esquizofrênica do poder. Se gaba de não fazer negócios no balcão do Congresso – diferente dos governos anteriores. Mas quando interessa reclama que os deputados e senadores agem na alçada que lhes pertence. O orçamento é uma peça apresentada pelo Executivo à apreciação e ao voto final dos representantes do povo. Estes, têm o direito e o dever de proceder ajustes, mudanças, retiradas e acréscimos. Só um olhar deformado das instituições classifica como chantagem o que é uma prerrogativa.

Em outra frente, o governador Romeu Zema, do Partido Novo, que se elegeu com a promessa de restaurar o equilíbrio das finanças públicas de Minas Gerais, resolveu abrir os cofres do estado, mesmo em petição de miséria, e conceder um aumento de 41,7% aos servidores da área de segurança. A Assembleia Legislativa pegou carona no ato de bondade do governador e ampliou o aumento para todo o funcionalismo estadual.

Na política, desconfie sempre dos que prometem ser o novo, diferente de todos os demais. Porque em breve estarão fazendo exatamente igual aos anteriores, senão pior. A natureza humana é uma só. Zema, que é empresário, não daria aumento tão substancial aos empregados de suas empresas. Mas sabem como é: fica mais fácil ser bonzinho com o dinheiro dos outros. Se Minas estava quebrado, agora está quebrado e meio.

 

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