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Atrizes brasileiras colecionam elogios em Cannes

Carol Duarte (D) e Julia Stocker (E) falam sobre preparação intensa para filme premiado em Cannes. (Foto: Reprodução)

Carol Duarte não tinha a menor ideia de quem era Julia Stockler – e vice-versa. As duas atrizes se conheceram durante o processo de seleção de elenco de “A vida invisível de Eurídice Gusmão”, descobriram afinidades, desenvolveram suas personagens juntas, e acabaram  criando uma das contribuições mais elogiadas do novo longa-metragem de Karim Aïnouz, que fez sua estreia, sob generosos aplausos, na mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes na última segunda-feira (20).

“Acho que, antes de buscar boas intérpretes, o Karim sentiu a necessidade de escolher pessoas com a humanidade e a entrega que os personagens exigiam, e que fossem  complementares uma a outra”, entende Julia, 30 anos, que além de atriz e autora, é professora de teatro do Tablado. “Se ele tivesse optado por atrizes de ego inflado ou vaidosas, com queda à competição, talvez esse filme não existisse. Pelo menos da forma como a gente o vê agora.”

A ação do filme se passa no Rio de Janeiro dos anos 1950. Na trama, elas interpretam duas irmãs muito unidas  separadas por força da moral conservadora e o machismo da época. A insegura Eurídice (Carol) deseja estudar piano em um conservatório de Viena, mas seus  planos são esmagados pelo casamento com Antenor (Gregório Duvivier), um funcionário público. A desinibida Guida (Julia) sonha com aventuras amorosas, engravida de um marinheiro grego e é expulsa  de  casa pelo pai, um padeiro português, sob o silêncio da mãe.

Tanto Carol quanto Julia  desconheciam o livro homônimo de Martha Batalha que serviu de fonte de inspiração para a trama. Elas levaram para o set memórias de outras “mulheres invisíveis” que reconheceram dentro de suas próprias famílias. Coprodução entre a brasileira RT Features e a alemã The Match Factory, o que garante de saída a distribuição naquele país, o filme estreia no Brasil em novembro.

“Todas as mulheres que nos criaram foram violentadas de alguma forma. Tenho uma avó que pode ter passado por experiências semelhantes”, diz Carol, 26 anos, a Stefania da novela “O sétimo guardião”, que é filha de portugueses. “Conheço bem de perto esses aspectos da cultura portuguesa, católica, machista e patriarcal. O filme revela isso de maneira interessante. A mãe de Eurídice e Guida também é uma mulher invisível, porque o silêncio imposto é uma violência.”

Julia também levou para o filme algumas experiências de opressão silenciosa que percebeu dentro de casa: “Minha mãe foi uma grande referência para mim, nesse contexto do filme. Ela vem de uma família muito católica e conservadora, e foi a única entre dez irmãos que teve a coragem de acabar um casamento e se separar. Todos os outros insistiram em uniões horríveis por pura inércia ou medo de serem criticados. Vejo um pouco da personalidade da Guida na minha mãe”, compara.

Durante a fase de preparação para o longa-metragem, Carol e Julia passaram por diversos tipos de exercícios para ajudar na construção das personagens. Um deles, mais lúdico, consistia criar um diário com lembranças das duas irmãs. Em outro, mais físico, elas tinham que e desvencilhar dos atores que deitavam sobre seus corpos.

“Foi meio angustiante”, confessa Julia, que em breve será vista nas séries “Gilda”, do Canal Brasil, e “Jungle pilot”, da Universal Channel . “A gente ouvia o esforço da outra para sair debaixo deles. A proposta do exercício era estimular que nós encontrássemos o lugar concreto da força masculina, a simbologia do corpo masculino na sociedade, que está sempre por cima, para então discutirmos sus subjetividades.”

No set de “A vida invisível de Eurídice Gusmão”, a concentração era palavra de ordem.

“Ninguém podia falar com a gente, além do Karim e da  (diretora assistente)  Nina  (Kopko) . E quando se dirigiam a nós, usavam o nome das personagens. Passávamos horas bordando nos intervalos das filmagens, ou fazendo alguma atividade que tivesse com a época do filme”, recorda Carol, que em julho estreia em São Paulo a peça “As siamesas”.
“Não podíamos usar celular, nem ter contato com as pessoas da equipe do filme fora do set, até as filmagens acabarem”, enumera Julia. “No início, foi um pouco assustador pra gente, que nunca tinha feito um longa-metragem antes. Mas, ao mesmo tempo,  a gente entendeu que foi a melhor forma de nos proteger naquele tipo de trabalho de composição. Qualquer distração e as emoções que você trabalhou escorrem de você.”

Em Cannes, Carol e Julia já colhem elogios e relatos emocionados de identificação com Eurídice e Guida.

“O filme está chegando até as pessoas. As mulheres, especialmente, vêm falar com a gente, muito emocionadas. Vivemos em um país onde a cultura é menosprezada, mas o mundo está querendo escutar o que temos para dizer”, afirma Julia. “Quando me perguntam sobre a atualidade do filme do Karim, a gente responde que é uma história sobre hoje. Porque temos conquistado muita coisa, mas a onda de retrocesso vem com a mesma força.”

 

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