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Brasileiro é investigado por ligação com guerrilha colombiana

Iván Duque, empossado em 2018, tornou possibilidade de acordo ainda mais remota. (Foto: Jose Rios/Fotos Públicas)

Um homem de 34 anos do interior de São Paulo é o único brasileiro a ter elo conhecido com os guerrilheiros do ELN (Exército de Libertação Nacional), o grupo narcoterrorista de extrema-esquerda da Colômbia que segue na luta armada. Eduardo de Abreu Rays, de Bauru, foi preso em flagrante em 31 de janeiro de 2018 no Norte da Colômbia , quase na fronteira com a Venezuela. Estava ao lado de três integrantes do ELN — os quatro devidamente trajados com roupas militares e com braceletes da organização guerrilheira, segundo o Ministério Público (MP) do país — e participou do roubo de um pequeno avião carregado com 2 bilhões de pesos colombianos (cerca de US$ 579 mil), conforme a acusação do MP. As informações são do jornal O Globo.

Rays ficou preso na Colômbia por um ano e quatro meses, até maio passado. Está de volta ao Brasil, segundo um levantamento de dados feito pelo MP colombiano. O roubo do avião ocorreu no aeroporto da cidade de Aguachica, no departamento (estado) de Cesar. Segundo a acusação, a avioneta carregada de dinheiro estava na pista do aeroporto, já tripulada, quando os quatro integrantes do ELN chegaram ao local fazendo disparos de fuzis. Acuados, os tripulantes desceram e os assaltantes tomaram o controle da aeronave.

Logo após decolarem, foram surpreendidos por disparos da polícia e forçados a pousar apenas cinco quilômetros adiante. O piloto era Rays, que acabou preso. Os três guerrilheiros que o acompanhavam fugiram. Na hora, o brasileiro disse ter sido sequestrado pela guerrilha em Barranquilla, a 420 quilômetros de Aguachica.

“Ele argumentou ter entrado na Colômbia com uma filha pequena. Mas entrou sozinho”, disse o procurador Cesar Tibamoso, que atua na área especializada do MP contra o terrorismo e cuida do caso.

Tibamoso explica que é comum o fluxo de guerrilheiros na fronteira entre Colômbia e Venezuela . Em suas palavras, “eles entram e saem o tempo todo” nessa parte norte do país.

Rays, no entanto, acabou sendo beneficiado por uma questão processual. Como não havia um tradutor para o português, o brasileiro acabou liberado e voltou ao Brasil. O promotor diz que isso não significa, no entanto, impunidade. Se houver condenação pela Justiça colombiana, o MP local vai pedir às autoridades brasileiras a extradição.

Dois casos comunicados

A reportagem conseguiu contato com o jovem, por telefone. Ele — cujas postagens nas redes sociais não evidenciam nenhuma militância de esquerda ou extrema esquerda — disse ter sido sequestrado e obrigado a pilotar o avião.

“Sou vítima. Estou em tratamento psiquiátrico, sob efeito de drogas, foi um trauma terrível. Fiquei totalmente abalado.”

Questionado sobre onde no Brasil ele está no momento, Rays respondeu:

“Não estou em lugar nenhum.”

Telegramas diplomáticos obtidos pela reportagem por meio de pedido ao Itamaraty via Lei de Acesso à Informação, mostram que organismos diplomáticos do Brasil na Colômbia foram acionados pelo menos duas vezes nos últimos dois anos para tratar de casos de brasileiros relacionados de alguma maneira ao ELN. Um desses casos é o que envolve Rays.

O telegrama da Embaixada do Brasil em Bogotá ao Itamaraty informa que um cônsul de Bucaramanga, a 170 quilômetros de Aguachica, foi deslocado para dar assistência ao brasileiro. Na audiência, em 2 de fevereiro de 2018, Rays ouviu a acusação de envolvimento com o ELN, como consta no telegrama. A sessão durou oito horas e, depois, ele foi encaminhado a um presídio de segurança máxima.

Um segundo caso citado em telegrama ocorreu em 2017. Uma brasileira foi sequestrada junto com a irmã do então negociador-chefe do governo colombiano com o ELN . Não fica claro se o grupo foi o responsável pelo sequestro. O telegrama diplomático registra que as duas ficaram 24 horas em poder de “criminosos” ligados a um “grupo delinquente”, sendo libertadas pela Polícia Nacional da Colômbia.

Os telegramas mostram ainda que o governo brasileiro foi informado sobre como o ELN ocupou vazios deixados pelas Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e sobre a consolidação da presença da guerrilha na fronteira entre Colômbia e Venezuela, incluindo com atuação em mineração ilegal. Os diplomatas avaliaram que não havia quase nenhum otimismo das autoridades colombianas em relação a um acordo de paz com o grupo.

O acordo de paz costurado com as Farc rendeu frutos para o ELN. A chegada em 2018 de um governo de direita na Colômbia, do presidente Iván Duque, tornou a possibilidade de acordo ainda mais remota.

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