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“Nossos sonhos podem ajudar a prever o futuro”, afirma neurocientista brasileiro

"O sonho simula um futuro possível com base nas lembranças do passado", disse Sidarta Ribeiro. (Foto: Elisa Elsie/Divulgação)

Durante muito tempo, o neurocientista Sidarta Ribeiro, do Instituto do Cérebro da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), manteve o hábito de registrar, em páginas de incontáveis cadernos, as lembranças que conseguia extrair das suas noites de sono, a fim de entendê-las melhor.

Seu interesse no assunto é antigo e, pelo menos desde 1995, converteu-se em pesquisa acadêmica e experimentos no laboratório. Todo esse conteúdo estudado no último quarto de século redundou no livro “O oráculo da noite – A história e a ciência do sonho”, lançado pela Companhia das Letras.

Ao longo de 459 páginas, o pesquisador se vale dos sonhos para traçar uma história da mente humana e argumenta que eles tiveram papel central na evolução da espécie. Para tanto, Ribeiro reuniu uma extensa – e diversa – bibliografia, em que história, religião, psicanálise, biologia molecular e neurofisiologia se complementam. O esforço se reflete em parágrafos que vêm carregados de informações e exemplos, da experiência dos povos ameríndios até as ondas cerebrais registradas por eletroencefalografia.

O pesquisador demonstra que, desde a Antiguidade clássica, não são poucas as histórias de sonhos premonitórios que influenciaram o destino de povos inteiros. Para ele, ao recombinar de maneira aleatória situações experimentadas durante a vigília, os sonhos podem oferecer indicações práticas para dilemas vividos por quem está dormindo.

Sidarta argumenta que anotá-los em um “sonhário” é o primeiro passo para entendê-los. Atormentado por pesadelos desde a infância, ele diz que aprendeu a controlá-los através de ‘sonhos lúcidos’, aqueles em que o sujeito deixa de ser o ator dos devaneios para se sentar na cadeira de diretor. E conclui que a experiência onírica deve voltar a ser levada em conta por uma sociedade que dorme mal e sonha cada vez menos. Abaixo, as principais ideias do neurocientista.

Sonho versus desejo

“O desejo é o motor do sonho porque é a ativação das vias dopaminérgicas de recompensa e punição durante o sono REM [fase em que os sonhos mais vívidos acontecem] que dá direção ao sonho. Isto é, as imagens oníricas são concatenadas de acordo com o desejo e o seu contrário, o medo, criando de imagens independentes uma história que pode ser depois narrada e portanto re-representada para outras pessoas. Essa prática diária, tão frequente por exemplo em populações ameríndias, faz com que os sonhos se transformassem em importante ferramenta diagnóstica dos problemas enfrentados, e também numa essencial fonte de soluções. Na contramão disso tudo, o capitalismo mercantil e depois industrial relegou o sonho a lugar nenhum. E a palavra passou a designar apenas o sonho vivido durante o dia como desejo, tipicamente de consumo.”

“Oráculo probabilístico”

“O sonho evoluiu como um ‘oráculo probabilístico’. Passando atividade elétrica nos circuitos que codificam as memórias mais fortes segundo as restrições impostas pelo desejo de recompensa e medo de punição, o sonho simula um futuro possível com base nas lembranças do passado. Na passagem do paleolítico para o neolítico e depois na Antiguidade, esse oráculo que existe em todos os mamíferos se complexificou enormemente, alavancando a explosão cultural que nos tirou das cavernas e trouxe à internet.”

“Sonhários”

“Depois que tive filhos, me juntei ao mundo dos que sonham de vez em quando. Infelizmente. Mantive ‘sonhários’ por muitos anos e tenho eles guardados até hoje. Gosto de voltar ver como eles interpretavam bem situações que eu estava vivendo, mesmo quando eu não as entendia. Para escrevê-los, é preciso ter pelo menos dez minutos todo dia de manhã cedo. É fundamental, porque quando você está no sono REM, não consegue fixar memória. Ao acordar, há um fiapinho de memória do sonho. Como uma pontinha de um novelo de lã. Quando você segura essa ponta, a noradrenalina chega, e a memória vai voltando aos poucos. Quem faz sonhários pode escrever de cinco a dez páginas toda manhã. Inclusive pessoas que falam que nunca sonharam.”

Freud tem razão

“Eu faço uma defesa muito enfática do [fundador da psicanálise Sigmund] Freud e listo as suas contribuições que foram corroboradas por experimentos científicos. A lista é grande. Uma bem clara é a ideia de que o sonho reflete a vigília. Isso já foi demonstrado em ratos e passarinhos, por exemplo, com ajuda de eletrodos e ressonância magnética. É um fato. A ideia de que existem repressão inconsciente e supressão consciente de memória foi provada em dois artigos na revista ‘Science’ por grupos muito bons, que citam Freud na primeira linha. Como pode ser que algum pesquisador dessa área diga que essa contribuição de cem anos atrás não é fértil para a ciência?”.

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