Domingo, 10 de maio de 2026
Por Ali Klemt | 10 de maio de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Ah, a maternidade!…A maior aventura do mundo. O mais árduo trabalho. A dedicação mais subestimada de todas. A responsável pelo maior amor – e pela maior dor – que um ser humano pode viver.
Eu não tenho a mínima dúvida de que nada, absolutamente nada, se compara ao sentimento que uma mãe nutre por um filho. Na minha opinião, aliás, esse sentimento supera o amor. Vai muito mais além. Trata-se de um misto de amor (muito amor, claro), orgulho, domínio e, acredite, humildade. Sim, porque se tornar mãe nos torna, necessariamente, humildes.
Humildes, porque partimos do zero. Não importa o que digam: a mãe nasce quando nasce o bebê. E você jamais saberá o tipo de mãe que será até tornar-se uma. E, mesmo depois disso, o segundo filho vem diferente e te surpreende e impõe uma nova forma de ser, enfim, mãe.
O que mais me atormenta, contudo, é outra coisa. Como, afinal, ainda não entendemos que gestar, criar e educar um ser humano é, sim, a mais importante função de qualquer pessoa? Por quê raios a maternidade é tão desmerecida? Em que momento passamos a valorizar conquistas territoriais, recorde de lucros, iates no exterior ou a fama por estar na tv como uma conquista maior?
Faço a pergunta e já respondo na sequência: porque parir, cuidar, amar é natural à mulher. E nós somos assim: o que é corriqueiro acaba perdendo valor. Banalizamos a mais sagrada função humana: ser mãe. E, ao fazer isso, parece que impusemos à mulher outras formas de se destacar na sociedade. A mulher, então, apesar do seu coração lhe dizer para ficar, sai para o mercado de trabalho para provar o seu valor (valor, aliás, que existe para as mais diversas funções: só quem é mãe sabe o quão qualificadas somos para, tipo, tudo).
Passamos décadas discutindo economia, política, tecnologia, inteligência artificial, crises institucionais, guerras culturais e disputas ideológicas… enquanto ignoramos silenciosamente a força que talvez mais determine o destino de uma sociedade: a forma como suas mães estão criando a próxima geração.
Sim. Eu realmente acredito nisso.
Acredito que, se o mundo fosse governado por mães verdadeiramente comprometidas com seus filhos, provavelmente viveríamos em uma sociedade mais responsável, menos vaidosa e muito menos indiferente às consequências das próprias decisões. Afinal, uma mãe saudável pensa no amanhã o tempo inteiro. Ela entende que pequenas escolhas moldam destinos. Ela sabe que amor não é permissividade. Que proteger não significa infantilizar. Que educar exige firmeza, presença, repetição, responsabilidade e exemplo. Mesmo quando longe, a consciência da mãe está perto. A maternidade não tira férias, que dirá fazer escala 5×2!
Sim, mães têm uma percepção muito mais concreta sobre segurança, educação, alimentação, saúde emocional e degradação social. São elas (na verdade, somos nós) que refletem: “em que sociedade meus filhos vão viver?”
Essa é a nossa chance de virada.
A maternidade não é apenas biologia. É construção civilizatória. Uma mãe emocionalmente presente muda trajetórias inteiras. Aliás, a neurociência já demonstrou, inúmeras vezes, que os primeiros anos de vida moldam profundamente o cérebro humano. Estudos sobre apego, desenvolvimento emocional e regulação do estresse mostram que vínculos seguros na infância impactam autoestima, capacidade de aprendizagem, inteligência emocional, controle de impulsos e até predisposição à violência na vida adulta. Isso é ciência, ok?
O famoso estudo ACEs (Adverse Childhood Experiences), conduzido pelo CDC americano, mostrou como traumas infantis e negligência aumentam drasticamente os riscos de depressão, vícios, doenças físicas e comportamento destrutivo ao longo da vida. Ao mesmo tempo, pesquisas em desenvolvimento humano apontam que ambientes familiares saudáveis funcionam como fator de proteção psíquica, emocional e social. Traduzindo: amor, presença e estrutura familiar não são “detalhes emocionais”. São infraestrutura humana.
E tem mais. Existe algo ainda mais impressionante sobre a maternidade: a ciência descobriu que mães carregam, literalmente, partes de seus filhos dentro de si para sempre! O fenômeno se chama microquimerismo fetal. Durante a gestação, células do bebê atravessam a placenta e passam a viver no corpo da mãe — algumas permanecendo por décadas, talvez pela vida inteira. Pesquisadores já encontraram células de filhos no cérebro, no coração, na pele e em diversos órgãos maternos muitos anos após o parto.
Em síntese, a maternidade é tão profunda que ela altera permanentemente o corpo feminino. Daí por que uma mãe nunca mais volta a ser exatamente quem era antes. E, de fato, ela realmente não volta. Biológica, emocional e espiritualmente, existe nela alguém que permanece.
Voltemos, portanto, à reflexão inicial Talvez seja justamente por isso que a maternidade venha sendo tão banalizada. Mães fortes formam indivíduos fortes. E indivíduos fortes pensam, questionam, criam autonomia e não aceitam facilmente qualquer narrativa pronta.
Veja o paradoxo moderno: nunca se falou tanto em saúde mental, mas nunca estivemos tão ansiosos, deprimidos e desconectados. Nunca houve tanta informação sobre infância, mas tantas crianças emocionalmente perdidas. Nunca defendemos tanto “direitos”, enquanto tantas famílias estão absolutamente esgotadas, fragmentadas e sem direção.
A maternidade não pode – e não deve – ser romantizada. Muito pelo contrário. Ser mãe é uma das tarefas mais difíceis da existência. É cansativo, renunciante, exaustivo e, muitas vezes, solitário. Há mulheres tentando equilibrar filhos, trabalho, contas, culpa, medo e autocobrança diariamente. Há mães solo sustentando o mundo com as próprias mãos enquanto fingem que estão bem. Mas justamente por isso precisamos devolver dignidade simbólica à maternidade.
Sabe por que? Porque mãe não é “apenas mãe”. “Só” mães alimentam. Educam. Consolam. Organizam. Protegem. Percebem silêncios. Antecipam dores. Sustentam emocionalmente famílias inteiras enquanto o mundo aplaude apenas produtividade financeira e performance social. Mães têm como um dos mais desafiadores trabalhadores gerenciar as emoções alheias, aparar arestas, incentivar superações, guardar abraços. Tudo silenciosamente. Tudo no espaço de uma batida do coração.
“Lindamente”, o príncipe herdeiro de Dubai, Sheikh Hamdan bin Mohammed bin Rashid Al Maktoum (eu tinha que mencionar o nome dele, mesmo sendo longo – sorry) anunciou que documentos oficiais deixariam de usar a expressão “dona de casa”, substituindo-a por “formadora de gerações”. Segundo ele, a mudança buscava reconhecer o papel das mães na formação moral, emocional e social da sociedade. A fala dele ficou muito forte porque dizia, essencialmente, que “as mães são a primeira escola dos filhos” e que nelas nascem valores como pertencimento, responsabilidade e compromisso com a nação.
Meu Deus. Chorei. Sério. Porque isso é reconhecer o peso, a importância, o valor da mãe. Aquela mulher que organiza uma casa, educa filhos, transmite valores, sustenta emocionalmente uma família e acompanha o desenvolvimento humano de crianças não está “apenas cuidando do lar”. Ela está ajudando a moldar o futuro da sociedade.
Existe algo profundamente injusto em uma cultura que trata com glamour absoluto quem movimenta planilhas, metas e negócios, mas que reduz a quase irrelevância social quem forma seres humanos. Nenhuma profissão existe sem que alguém, antes, tenha formado uma criança minimamente funcional para ocupar aquele espaço no futuro.
Portanto a enorme reflexão que devemos fazer é essa: uma das maiores distorções modernas tenha sido convencer mulheres de que construir seres humanos emocionalmente saudáveis seria algo pequeno. Pequeno? Oi?
Estamos falando da base da civilização!
“Ah, mas a mulher tem que ser o que ela quiser!”. E alguém aqui disse algo contrário? Claro que não! Valorizemos a maternidade das mulheres que queiram ser mães – as demais, que façam o que quiserem, que tenham sucesso, que vençam suas lutas, mas que saibam: nada é mais valioso, importante e pertinente do que gerar um bebê, fazê-lo sobreviver e torná-lo um ser humano íntegro. Literalmente, é trabalho pra uma vida inteira (até hoje, a minha mãe me “educa”).
Mas a mãe deve ser “só” mãe? Claro que não!!! Estudos em psicologia do desenvolvimento mostram que crianças tendem a se beneficiar enormemente quando convivem com mães emocionalmente realizadas, com senso de identidade, autoestima preservada e percepção de propósito pessoal. Isso porque filhos aprendem muito menos pelo discurso — e muito mais pelo exemplo! Uma mãe que se cuida, que desenvolve talentos, que mantém sonhos, vínculos sociais, espiritualidade, saúde emocional e senso de valor próprio ensina, silenciosamente, algo fundamental aos filhos: que a vida deve ser vivida com significado. Uma mãe feliz, realizada, bem resolvida forma – adivinha? – seres que nela se espelham e assim se tornam.
Maternidade não deveria significar desaparecimento. Deveria significar expansão. Mas, principalmente, que essa expansão viesse com o mais pleno reconhecimento da sociedade. Tipo: “cara, ela é TUDO ISSO e ainda por cima é mãe! Uau!”. Porque, sim, nós mães trabalhamos, nos esforçamos, nos desgastamos, nos entregamos em dobro. À nossa função social e à maternidade. E o que me choca é o absoluto menosprezo a essa função. Como se fosse simples. Mas não é.
E enquanto não compreendermos (e valorizarmos!) a importância vital de se formar seres humanos inteiros, empáticos e emocionalmente saudáveis, não há solução para a nossa sociedade. Mas cabe a nós, mães, assumirmos essa tarefa. Afinal, toda mãe carrega, silenciosamente, a possibilidade de alterar o destino emocional da próxima geração.
Sim, mães mudam o mundo. Mas não através de frases bonitas de internet. Mudam através da repetição diária do amor. Do exemplo. Da presença. Da responsabilidade. Da coragem de formar seres humanos decentes em uma época que normalizou superficialidade, imediatismo e vazio. Mudam através da entrega incondicional a um propósito altruísta: viabilizar a vida de outra pessoa.
No fim, talvez a grande revolução da humanidade continue sendo a mais antiga de todas: um adulto emocionalmente saudável criado por alguém que escolheu amar com propósito. Assim, talvez, possamos mudar o rumo e acertar o destino para uma sociedade melhor.
Feliz dia das mães a todas nós.
Instagram: @ali.klemt
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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Falou um monte de besteira, se uma mãe como eu, nunca tivesse trabalhado, estaria morando embaixo da ponte e dependendo de bolsa família do governo. Or sorte trabalhei e sou independente financeiramente . Sendo q minha única filha sempre teve carinho e tudo que quis, inclusive sempre estudou em colégio particular e até a faculdade foi paga. Adivinha quem ela é hoje, uma narcisista, que tudo é ele, nem os filhos criou, graças a babá maravilhosa deu carinho para as crianças. A mãe, essa nem existe para ela, depois que se juntou com bolsonaridtas para ela não existe mãe e… Leia mais »