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CAD1 Entenda as causas da crise cambial na Turquia em sete pontos

País abusou do crédito para estimular a economia e agora sofre com "déficits gêmeos". (Foto: Reprodução)

A lira turca voltou a cair com força nesta segunda-feira (13), levantando temores de um contágio para outros mercados emergentes. Mas a crise cambial tem origens diversas e um pano de fundo político complexo. Há sete pontos principais que devem estar no foco de investidores, governos e bancos centrais para entender a crise turca.

1) Para além do mercado cambial

Embora o foco o foco dos últimos dias tenha sido em quanto a moeda está oscilando, as dificuldades da Turquia vão além do mercado cambial. Moedas oscilam frequentemente, especialmente em economias emergentes, e não apenas em trajetória de queda. Os movimentos mais violentos nem sempre são o motivo da turbulência tampouco seu desfecho. O melhor é que sejam vistos como o indicador mais visível de uma crise, e que pode também indicar seus desdobramentos.

2) Desequilíbrios vêm ocorrendo há algum tempo

Ao estimular sua economia insistentemente com base em crédito e, mais recentemente, pelo orçamento, a Turquia acumulou “déficits gêmeos” — desequilíbrios que estão tanto no orçamento do setor público quanto nas trocas de recursos com o exterior. Financiados por empréstimos externos e pela entrada de capital estrangeiro, esses déficits ajudaram a impulsionar investimento e o crescimento do país. A expansão adicional do PIB com essas políticas, porém, não tem sido insuficiente para compensar a alta do endividamento público do país.

3) O cenário externo se deteriorou

Embora a necessidade de financiamento seja considerável, a Turquia enfrenta agora um ambiente externo mais desafiador. E isso não vai mudar num futuro próximo. Assim, a entrada de capital se tornou menos abundante e mais cara.

O mundo encontra-se em meio a uma transição, saindo de um longo período de taxas de juros baixas demais, e em alguns casos negativas. Parte das grandes injeções de capital vindas do programa de compra de ativos de bancos centrais pararam (como ocorreu com o americano Federal Reserve, o Fed) ou estão encolhendo (caso do Banco Central Europeu). O Fed já subiu os juros em diversas ocasiões, numa trajetória que dificilmente será abandonada a curto prazo devido ao aumento contínuo da inflação. E com o cenário político, o crescimento econômico e as diferenças nas taxas de juros favorecendo os Estados Unidos, a probabilidade de novo movimento de valorização do dólar frente a outras divisas é considerável.

4) Investidores duvidam sobre a capacidade de resposta do governo turco

A situação do país é ainda mais complicada devido a preocupações sobre a sua capacidade de manejo da política econômica. Sob forte pressão política, o banco central do país perdeu a credibilidade e tem pouca margem para adotar medidas para estabilizar a lira turca. As preocupações com interferência política no BC foram amplificadas após o presidente Recep Tayyip Erdogan ter designado seu genro como ministro das Finanças.

5) Falta de apoio externo

A resposta tradicional de países que enfrentam situações similares à da Turquia hoje é procurar por uma ou mais âncoras externas para apoiar suas políticas domésticas. Normalmente, o caminho inclui pedir ajuda ao Fundo Monetário Internacional (FMI), o que significa tanto apoio financeiro como a adoção de um pacote de medidas domésticas para conter a crise. Foi isso que a Argentina fez no início deste ano para lidar com sua própria desordem cambial. E um apoio à Turquia pelo FMI teria como pano de fundo as preocupações com um possível risco de contágio para outros emergentes.

6) Deixar a tempestade se resolver por conta própria é uma opção, porém não a mais atrativa

O governo turco pode simplesmente não fazer nada e deixar a lira turca cair a seu próprio piso. A questão não é se isso eventualmente ocorreria por si só – porque vai ocorrer – mas sim a que custo para a economia. Até agora, a forte queda na lira turca já elevou os preços, agravou a dívida do país, pressionou os bancos locais, reduziu o crescimento econômico e abalou a confiança dos empresários.

7 ) Temor de o país adotar controle de capital

Há cada vez mais rumores de que a Turquia possa implementar mecanismos de controle da capital, para limitar a fuga de capitais e conter a crescente dolarização da economia local. Esses rumores acabam acelerando a perda de confiança na lira turca e aumentando a pressão sobre os mercados e a economia.

 

 

 

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