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Mundo O suicídio feminino cresce no Japão

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No Japão, 6.976 mulheres tiraram suas vidas no ano passado, uma alta de aproximadamente 15% em relação a 2019. (Foto: Arquivo/EBC)

Pouco depois de o Japão ter intensificado sua luta contra o coronavírus, no ano passado, Nazuna Hashimoto começou a ter ataques de pânico. A academia de ginástica de Osaka em que ela trabalhava como personal trainer paralisou as atividades e seus amigos ficavam em casa seguindo as recomendações do governo.

Com medo da solidão, ela ligava para o rapaz com quem namorava havia poucos meses e pedia que ele fosse até sua casa. Mesmo assim, às vezes, ela não conseguia parar de chorar. Sua depressão, que tinha sido diagnosticada no início do ano passado, estava fora de controle. “O mundo em que eu vivia já era pequeno”, afirmou ela. “Mas senti que ficou menor.”

Em julho, Hashimoto não conseguia ver nenhuma saída e tentou o suicídio. O namorado a encontrou, chamou uma ambulância e salvou sua vida. Ela está falando publicamente a respeito da experiência, pois quer acabar com o estigma associado ao debate em torno da saúde mental no Japão.

Se a pandemia dificultou a vida de muita gente no país, as pressões foram mais intensas sobre as mulheres. Como em muitos países, foram elas que mais perderam emprego. Em Tóquio, a maior metrópole do Japão, uma em cada cinco mulheres vive sozinha, e as orientações de ficar em casa e evitar visitas à família exacerbaram a sensação de isolamento.

Outras mulheres enfrentaram as disparidades profundas em relação à divisão do trabalho doméstico e aos cuidados com crianças na era do trabalho remoto – ou sofreram com o aumento dos casos de violência doméstica e abuso sexual.

O crescente custo psicológico e físico da pandemia foi acompanhado de uma preocupante elevação dos suicídios entre as mulheres. No Japão, 6.976 tiraram suas vidas no ano passado, uma alta de aproximadamente 15% em relação a 2019. Foi o primeiro aumento anual nesse índice em mais de uma década.

Todo suicídio e toda tentativa de suicídio representam uma tragédia individual, com raízes em uma complexa miríade de razões. Mas essa alta entre as mulheres, que se manteve por sete meses consecutivos em 2020, preocupou autoridades e especialistas em saúde, que trabalharam para combater um quadro que representa um dos maiores índices de no mundo.

Essa situação exacerbou desafios antigos do Japão. Ainda é difícil falar a respeito de saúde mental ou buscar ajuda em uma sociedade que valoriza o estoicismo. “Infelizmente, a tendência atual é culpar a vítima”, afirmou Michiko Ueda, professora de ciência política na Universidade Waseda, em Tóquio, que tem pesquisas a respeito dos suicídios.

Ueda descobriu, em levantamentos feitos no ano passado, que 40% dos entrevistados se preocupavam com pressões sociais caso contraíssem o novo coronavírus. “Basicamente, não apoiamos quem não é ‘dos nossos’”, afirmou. “E, se você tem problemas mentais, você não é um dos nossos.”

Influência

Especialistas também se preocupam com a possibilidade de sucessivos suicídios de astros de filmes e de TV japoneses terem estimulado uma série de suicidas imitadores. Depois que Yuko Takeuchi, uma atriz popular e premiada, tirou a própria vida, em setembro, o número de mulheres que se suicidaram no mês seguinte saltou quase 90% em comparação com o ano anterior.

Pouco após a morte de Takeuchi, Nao, de 30 anos, começou a escrever um blog para discorrer a respeito de sua vida de batalhas contra depressão e distúrbios alimentares. Ela escreveu com sinceridade a respeito da própria tentativa de suicídio, três anos antes.

Tamanha transparência em relação a problemas de saúde mental ainda é algo raro no Japão. Os suicídios de celebridades fizeram com que Nao – que pediu para não ter o sobrenome revelado – refletisse a respeito de como reagiria se tivesse atingido seu fundo do poço emocional durante a pandemia.

“Quando você está em casa, sozinha, você se sente muito isolada da sociedade, e essa sensação é muito dolorosa”, afirmou. “Só de me imaginar naquela situação, acho que a tentativa de suicídio aconteceria muito antes. E acho que provavelmente teria conseguido.”

Durante a pandemia, a perda de empregos entre as mulheres foi desproporcional. Elas eram maioria entre os funcionários dos negócios mais afetados pelas medidas de controle da contágio, incluindo restaurantes, bares e hotéis.

Cerca de metade de todas as trabalhadoras tem empregos de meio período ou contratos temporários, e quando os negócios esmoreceram, esses postos de trabalho foram os primeiros a serem cortados pelas empresas. Nos primeiros nove meses do ano passado, 1,44 milhão de pessoas que trabalhavam nesses regimes perderam o emprego – mais da metade eram do sexo feminino.

O governo japonês criou o cargo de ministro da Solidão para tentar reduzir os efeitos do isolamento causado pela pandemia e lidar com as taxas de suicídio do país, que subiram após 11 anos. A preocupação com os efeitos do isolamento se dá em torno principalmente dos idosos, que correspondem a 28,7% da população, a maior do mundo em proporção.

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