Segunda-feira, 21 de Setembro de 2020

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Edson Bündchen Simples, errado e perigoso

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As ideias circulam pelo mundo. Algumas delas ganham densidade e se transformam em conhecimento; outras, em projetos que alteram realidades locais e, algumas poucas, alçam à condição de ideologias, capazes de mudar a vida em sociedade. Dentre essas últimas, existe uma especialmente perigosa, por se camuflar com uma aura de simplificação da realidade, mas que carrega sementes de indisfarçável autoritarismo e intolerância.

A visão descomplicada do mundo é muito atraente. Para problemas complexos, uma solução simples pode ser tentadora, mas geralmente está errada. Pessoas assoberbadas por um cotidiano estressante e incerto, tendem a achar simpática uma saída que lhes exija menos tempo para compreensão. Desse modo, políticos que tragam uma solução mais simples, mesmo que equivocada, podem ter sucesso. Mas esse certamente não é o maior problema. Por detrás desse aparente despojamento, existe uma ameaça perigosa e que possui raízes históricas comprovadamente trágicas: o fascismo.

Para Jason Stanley, professor de filosofia na Universidade de Yale, as ideias do fascismo estão latentes e, mesmo distantes da realidade econômica, social e política da Itália de Mussolini, ainda encontram eco nas ações e comportamentos de muitos governantes. Não é difícil identificar as práticas de cunho fascista, uma vez que essas possuem na política do nós contra eles o seu fio condutor, e compartilham alguns princípios em comum. Em conjunto, esses ideais se transformam em ameaça real aos pilares da democracia, como a liberdade de imprensa e de expressão, judiciário independente, eleições livres, etc. Talvez por esse falso apelo à simplicidade, e ao discurso dissimulatório, a besta do fascismo ainda permaneça como uma sombra a pairar sobre nós, com a sua visão limitadora e preconceituosa do mundo.

É interessante notar que, ao abraçar uma mentalidade excludente e intolerante em relação ao outro, quase que naturalmente emerge um conjunto comum de características identitárias do totalitarismo. Dentre as vítimas, encontram-se as universidades e os intelectuais, justamente por significarem o oposto ao pensamento absolutista. Domar as ideias plurais e humanistas, passa a ser um objetivo a ser perseguido por admiradores do pensamento único. Além disso, a recriação da narrativa de um passado mítico, ameaçado pelo globalismo e cosmopolitismo liberal, o uso da propaganda para atacar as instituições, a hierarquia como anteparo à luta pela igualdade e o nacionalismo autopiedoso, no qual existe uma suposta dívida pregressa a ser resgatada, sustentam parte importante do ideário ditatorial.

Stanley ainda descreve a noção de uma raça pura e masculinidade patriarcal como pressupostos de uma idealizada preservação dos valores tradicionais da família. Mas não é somente isso. Dentro da ideologia fascista, existe desconfiança sobre o elevado grau de pluralismo das grandes cidades, e um apelo maior pela vida rural e seu “ethos” de autossuficiência. Ademais, a noção de minorias é encoberta pela ideia de competição do mais apto, com simpatia pelo darwinismo social, visão que constrange iniciativas socialmente inclusivas.

O canto da sereia dos discursos autoritários é real e afeta objetivamente a vida de milhões de pessoas pelo mundo. No momento em que desafios globais como a questão ambiental, a migração em massa de pessoas e a recuperação da economia pós-pandemia da Covid-19, reclamam por solúveis integradas e colaborativas, o pensamento fascista converte-se em risco potencial. Identificando e combatendo as políticas opressivas, teremos condições de preservar e fortalecer o ideário democrático e afastar o risco do totalitarismo. Nesse sentido, a participação ativa na vida política do País não deve ser negligenciada, sob pena de ideias simples, erradas e perigosas virem a nos governar.

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