Sexta-feira, 23 de Outubro de 2020

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Edson Bündchen Tanto Marte quanto Vênus

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O modo como as coisas são originalmente concebidas afeta profundamente o comportamento presente e futuro da vida em sociedade. O arquétipo masculino dominante, fundado na força física, foi decisivo, desde os primórdios da civilização, no delineamento dos papéis desempenhados por homens e mulheres. Com o advento da Revolução Industrial, as expressivas mudanças nos hábitos e costumes das pessoas, trouxeram também em sua esteira um gradual processo de emancipação feminina, culminando com o atual ponto de inflexão. Hoje, testemunhamos a uma reconfiguração da atuação das mulheres, quer na sociedade de forma geral, quer junto ao papel profissional e de liderança empresarial.

Aos poucos, os laços que prendiam as mulheres aos preconceitos do passado vêm sendo superados, abrindo um horizonte antes impossível de imaginar, dado o conjunto de discriminação e dificuldades estruturalmente existentes. Com maior espaço para prosperar, as mulheres tendem agora a avançar mais rapidamente, ocupando lugares antes dominados pelos homens, em todos os segmentos da sociedade. Essa nova realidade sinaliza uma paisagem mais inclusiva e democrática no tratamento das oportunidades, pressupostos de uma vida comunitária mais plural e humanisticamente avançada.

Alguns exemplos por maior equidade de gênero são encorajadores, apesar de ainda insuficientes. Na política, a Chanceler alemã, Ângela Merkel é hoje a personalidade mais influente da Europa. Úrsula Von Der Leyen, Presidente da Comissão Europeia e Christine Lagarde, Presidente do Banco Central Europeu, são exemplos da ocupação de espaços estratégicos pelas mulheres no ambiente econômico. No mundo dos negócios, o percentual de mulheres em cargos executivos vem crescendo, mas ainda é baixo. Estudo da consultoria McKinsey aponta que, apesar dos esforços, o progresso para um maior equilíbrio entre homens e mulheres precisa evoluir. O mundo corporativo é conservador e apresenta grandes obstáculos quando o assunto é diversidade de gênero.

Esse panorama, entretanto, começa a melhorar. Há duas forças estruturais e uma de ordem conjuntural que, em sintonia, prometem acelerar um maior protagonismo das mulheres. A primeira causa, de ordem tecnológica, integrou o planeta e solapou da força bruta seu sentido de poder. Menos refém da figura masculina, o campo de jogo entre homens e mulheres ficou mais nivelado, eliminando uma das razões históricas da falta de equidade. A segunda vertente, de cunho comportamental, deriva da ascensão das competências sociais e emocionais no mundo organizacional. O saber fazer junta-se ao saber ser, incorporando noções de maior sensibilidade, visão holística, afeto, empatia, amorosidade e solidariedade. Do ponto de vista conjuntural, a aceleração das transformações deste novo milênio confere maior velocidade aos avanços tecnológicos e às mudanças comportamentais, combinando-as e estimulando a sociedade a repensar formas mais equilibradas de participação das mulheres na vida econômica e social.

Ademais, a crise ambiental, o desafio imposto pela Inteligência Artificial e as questões geopolíticas, reclamam por maior capacidade de visão sistêmica, articulação e colaboração, desafios que exigem um esforço integrado e coletivo. Assim como a estrutura social do passado foi edificada com o suporte circunstancial de atributos notadamente masculinos, o atual ponto de mutação sinaliza para um outro eixo gravitacional. Nesse novo paradigma, mais humanista e plural, haverá um papel de maior relevo para as mulheres. Isso, contudo, depende não somente das condições históricas favoráveis que se apresentam, mas simultaneamente do engajamento de toda a sociedade, nesse processo de avanço civilizacional que a todos afeta.

 

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