Terça-feira, 07 de Julho de 2020

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Edson Bündchen Terra de ninguém?

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As "fake news" transformaram as redes sociais numa espécie de terra de ninguém. (Foto: Reprodução)

Assistimos a uma intensa polêmica sobre os limites da liberdade de expressão diante de uma avalanche das chamadas “fake news”, que transformaram as redes sociais numa espécie de terra de ninguém. O que houve? Por que as publicações livres, democráticas e instantâneas não causaram até agora o impacto político esperado? Para o historiador escocês, Niall Ferguson, a expectativa de que as redes sociais fariam um mundo melhor não se concretizou. A possibilidade de que os cidadãos da internet seriam capazes de confrontar o poder estabelecido também não ocorreu como previsto.

Por um imperativo lógico, ninguém dá aquilo que não tem. Isso impõe limites aos planos mais modestos até aos mais sofisticados, uma vez que delimita a contribuição de cada um a seu próprio repertório. Não há como esperar que alguém, desprovido de capacidade crítica, por exemplo, consiga elaborar um pensamento melhor simplesmente porque dispõe de um meio universal para expressar suas ideias. Nesse caso, o sujeito estaria simplesmente amplificando a sua ignorância, sem agregar valor ou contribuir com o tema no qual opina.

Nessa linha, o consagrado pensador, Umberto Eco, afirmou que o drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade. A ampla liberdade de expressão nas redes sociais foi uma conquista enorme para toda a sociedade, mas também dissemina o ódio e o preconceito sem nenhum tipo de freio. Todos falam o que querem e poucos ainda são responsabilizados. É como se existisse um véu de impunidade protegendo a internet. Hoje, a rede mundial de computadores a tudo permite, território no qual ataques à honra e aos preceitos mais caros à boa convivência social são ultrapassados com espantosa naturalidade, muitos deles sob autoria anônima. Trata-se de um campo ainda sem a devida regulamentação, o que é positivo em relação à liberdade de expressão e disseminação do conhecimento, porém, também palco para calúnias e mentiras de toda ordem. Urge que se discutam limites mais claros para que a possibilidade de expressão não se converta num moedor de reputações e ataque indiscriminado às instituições e pessoas, como acontece atualmente.

A difusão instantânea das informações permitiu, ainda, o surgimento de redes colaborativas que imprimiram um ritmo frenético aos avanços tecnológicos, com transformações disruptivas que estão provendo a humanidade com tecnologias inéditas e de alto impacto em diversas áreas. A despeito disso, o que se questiona, é a capacidade da Internet fazer com que pensemos melhor, nos posicionemos com maior assertividade, e ajamos politicamente com maior consciência.

Nesse sentido, não podemos desconhecer que a quantidade e a amplitude das informações disponíveis confrontam-se diretamente com o necessário esforço que determinados temas requerem para serem compreendidos e interpretados, provocando níveis rasos de compreensão. Assim, mais do que esperar que a internet possa melhorar a nossa capacidade cognitiva pela simples troca de informações on-line, urge que voltemos a atenção para o verdadeiro aprendizado, aquele capaz de combinar os extraordinários avanços das tecnologias, especialmente nas comunicações, com uma disposição permanente para buscar novos conhecimentos em níveis mais significativos, e isso obviamente requer tempo e dedicação. Não há atalhos nem milagres quando o objetivo é atingir um patamar mais elevado em termos de consciência cidadã e melhoria do intelecto. Repercussões mais profundas na vida política, através da Internet, também dependem da melhoria geral do repertório dos usuários. Sem isso, as expectativas de que a Rede promoveria “per se” um mundo melhor, não ocorrerão.

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