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O uso de drogas estimulou o avanço das tropas nazistas durante a Segunda Guerra Mundial e afetou o comportamento delirante de Hitler

Para o jornalista e escritor Norman Ohler, "o Führer foi delirante desde o início da guerra, quando não era viciado". (Foto: Reprodução)

Na madrugada de 11 de dezembro de 1944, poucos meses antes do fim da Segunda Guerra Mundial, um séquito de generais viajou para uma estação de comando no interior da Alemanha. Na entrada, eles encontraram um homem curvado, de rosto pálido e mãos trêmulas. Era Adolf Hitler.

Desde agosto de 1941, o médico Theo Morell tratou de Hitler praticamente todos os dias, com drogas sintéticas, cocaína, hormônios e esteroides. Três anos depois, em maio de 1945 e com o cérebro comprometido, o Führer chegava ao fim da guerra tão esgotado quanto seu Exército, que consumiu milhões de comprimidos da metanfetamina Pervitin.

O escritor e jornalista Norman Ohler investigou nos arquivos nacionais de Washington as anotações remaescentes de Morell, compostas por páginas riscadas de seus receituários, fichas repletas de abreviações, agendas com comentários e cartas profissionais e pessoais. Em entrevista ao jornal O Globo, ele conta que a ascensão e queda do Terceiro Reich foram influenciadas por drogas.

1) Como explicar a dependência química dos militares e de Hitler durante a Segunda Guerra Mundial?

Esta é a grande ironia da História. De fato, a ideologia nazista era contrária ao uso destas substâncias. O sangue ariano não poderia ser contaminado por tóxicos, que eram frequentemente relacionados aos judeus e a minorias. Hitler representava o mito da pureza — não fumava, não bebia, não comia carne. Mas, quando a guerra começou, o Exército exigiu estimulantes. A principal droga era o Pervitin, nome comercial de um composto à base de metanfetamina, cujo efeito foi descrito em uma revista médica como “excitante e estimulante”, um instrumento capaz de aumentar a energia, autoconfiança e determinação.

2) Os Aliados conheciam esta droga?

No começo, não tinham ideia. Parecia não haver explicação para o fato de a Alemanha ter precisado de apenas três dias para invadir a França. O Exército consumiu 35 milhões de comprimidos, o que permitiu que os soldados lutassem dias e noites consecutivas. Winston Churchill, nomeado primeiro-ministro britânico no dia do ataque nazista, ligou para seu colega francês, Paul Reynaud, para tranquilizá-lo — afirmou que, em algum momento, os inimigos teriam que descansar. Com a droga, porém, o repouso não foi necessário. Os Aliados só descobriram o Pervitin em aviões alemães derrubados, e avaliaram sua adoção. Em 1941, porém, eles optaram por consumir anfetaminas — que são substâncias mais fracas, mas provocam menos dependência.

3) Como o senhor define o relacionamento entre Hitler e seu médico, Theo Morell?

Eles tinham uma relação simbiótica. Hitler passou mais tempo com Morell do que com qualquer outra pessoa. O médico, que era um civil, o acompanhava até em reuniões sobre a situação do front, o que provocava olhares depreciativos de outros generais. Hitler sempre desconfiava dos militares, acreditava que eles queriam enganá-lo o tempo todo, mas confiava completamente nas injeções de hormônio, esteroides e no Eukodal, uma droga sintética quase duas vezes mais potente do que a morfina e que provocava uma clara melhora do humor. Devido a uma lesão nos tímpanos, Hitler também foi atendido pelo otorrinolaringologista Erwin Giesing, que o anestesiou com cocaína, reprovada pelos nazistas como a “droga degenerativa judaica”. Giesing afirmou ter ministrado a substância ao Führer mais de 50 vezes em 75 dias.

4) É possível dizer que, se não fosse o consumo abusivo de drogas por Hitler, os rumos da guerra seriam diferentes?

É difícil dizer. O Führer foi delirante desde o início da guerra, quando não era viciado. Depois de tomar tantas drogas, suas decisões perderam contato com o front. Talvez as injeções tenham contribuído para sua crença de que o povo alemão era mais forte, e que, por isso, sempre se devia reagir, e não buscar a paz. (AG)

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