Domingo, 31 de Maio de 2020

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Lenio Streck Modelo de reportagem de TV está esgotado. De há muito!

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O humorista Adnet fez um quadro que bem mostra o fenômeno. (Foto: Reprodução)

Há mais de vinte anos brinco com o “modelo” de fazer reportagem de TV. Isso é antigo. Já era assim nos anos 80, quando escrevi sobre as “isomorfias”. Calma. Explicarei já, já, o que é isomorfismo.

Não sei se ensinam isso nas faculdades, mas que é bizarro, ah isso é. Dizia eu em um texto de 1991: “hoje em dia, o repórter para falar de uma enchente tem de estar com a água pelo pescoço”. Lembro-me que, nas constantes altas da gasolina, o entrevistado era o pipoqueiro. Ou o repórter aparecia andando de táxi. Sem esquecer que o primeiro bebê do ano aparece nos braços do ou da repórter vestida de enfermeiro(a).

Bom, os repórteres se aperfeiçoaram. Mas não alteraram o modus operandi. O humorista Adnet fez um quadro que bem mostra o fenômeno. Na matéria, Adnet faz o que os repórteres fazem: acham que o telespectador é um imbecil, uma taipa, que não sabe o que é metáfora. Ótima sátira do Adnet. Sim, o modelo de reportagem consegue fazer uma coisa que ninguém conseguira na linguística: explicar uma metáfora ou uma alegoria.

Essa da água pelo pescoço é velha. Mas se repete. Matéria sobre mensalidades escolares: o repórter fala, com pausas, da frente do colégio. Depois estará na sala de uma família, com um carnê na mão. E “explicará” o que quis noticiar.

No futebol, então, formou-se uma escola isomórfica (nota: isomorfia é tentar “colar” palavras e coisas” – digamos assim que o filósofo Wittgenstein tentou isso no livro Tractatus Logico Philosophicus, tendo, depois, escrito outro livro para dizer que isso não dava certo). Aliás, em 1728 Jonathan Swift já brincava com isso no seu Viagens de Gulliver, quando mostra um “cientista” que inventou a comunicação sem palavras: mostrava só as coisas…! A literatura sempre corre na frente! Na verdade, a literatura faz melhor. O cientista de Gulliver substitui a palavra pela coisa. Hoje, o repórter fala da coisa por metáfora e “mostra” a metáfora. Como a palavra água molhasse. Tenho de rir.

O time do Grêmio está subindo de produção (e o repórter mostra um avião decolando). Incrível, não? Genial! Pullitzer para o repórter. Ora, explicar aquilo que com que se queria explicar uma coisa?

O time do Flamengo está comendo a bola. É uma metáfora. Mas o repórter mostra um cachorro comendo uma bola. Repórteres querem pegar as coisas ao pé da letra. Bom, será que letra tem pé? A palavra fogo será que queima?

Se se quer dizer que o jogador é um touro, isso é uma metáfora para que as pessoas entendam mais facilmente. Jesus falava por metáforas. Agora, se se diz que Hulk é um jogador touro de forte e, para isso, mostrar um touro no pasto, aí a vaca foi para o brejo… Putz: tem de mostrar a vaca indo para o capinzal.

Minha dúvida é: isso é ensinado nas faculdades? Bom, no direito alguns cursinhos de preparação para concursos – e também faculdades – fazem quase isso. Ensinam por memes e explicam os memes. Rebaixam o estudante ao res do chão. Putz: tem de mostrar um rodapé ou.. como se mostra, mesmo, o res do chão?

De todo modo, não me peguem ao pé da letra (repórter aparecerá pegando no pé de uma enorme letra…).

Poxa, não consigo parar (aparece uma sinaleira no vermelho!). Fico imaginando o professor ensinando isso. Será que ensinam isso mesmo, ou isto é uma adaptação darwiniana dos repórteres?

Tenho de terminar o texto. Para que isso não vire um moto contínuo. Alias, fosse TV, o (a) repórter mostraria… Bah. Essa é difícil. Como se “isomorfiza” o moto contínuo? Deixa prá lá. Mostra um contínuo de moto. É quase a mesma coisa!

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