Sexta-feira, 29 de Maio de 2020

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Opinião Não podemos comprar como certo a enxurrada de informações que chega a nós

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Mandetta nos encanta na forma de falar, na segurança que passa, nas frases de efeito

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Mandetta nos encanta na forma de falar, na segurança que passa, nas frases de efeito. (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Texto de autoria de Claudia Fam Carvalho, médica psiquiatra e psicoterapeuta 

Na faculdade de medicina, tínhamos aulas sobre como fazer uma análise crítica de artigo científico. Nessa disciplina, nos ensinavam a pensar, questionar, duvidar, colocar em xeque as conclusões dos autores. Assim, podíamos chegar às nossas próprias opiniões sobre as contribuições de certo artigo, bem como saber mensurar suas limitações.

Extrapolando para a situação atual, tanto da pandemia, quanto da crise política, me vejo tendo que recorrer à metodologia científica. Não podemos comprar como certo a enxurrada de informações que chega a nós. Temos que ter uma postura crítica para, ao fim e ao cabo, conseguir valorizar o que de bom vem sendo feito pela população e para o Brasil, porém sem esquecer de pontuar o que não agrega.

Ontem, o dia foi de caos, insegurança e jogo político. Jogo pressupõe 2 times. Se um time não se apresenta, não sai jogo. Ontem tivemos jogo, porque 2 políticos, o presidente e o ministro, entraram em campo.

As orientações técnicas do Ministério da Saúde são extremamente coerentes e, ao meu ver, eles vem realizando um ótimo trabalho, tanto no isolamento quanto na gestão de recursos públicos para fins de organização das mais diversas regiões do Brasil para enfrentamento do coronavírus. O Mandetta nos encanta na forma de falar, na segurança que passa, nas frases de efeito como “paciente Brasil”, “médico não abandona paciente”, “lavoro, lavoro, lavoro”.

É evidente que a pandemia nos fragiliza, pois aponta a vulnerabilidade da vida. Foi fácil idealizar o ministro, excelente orador. É político e, como tal, é importante que entendamos também suas ambições políticas, sem demérito algum. Simplesmente, é sua profissão.

Por outro lado o presidente Bolsonaro, que se elegeu com a bandeira da honestidade, patriotismo e coragem para tirar do poder um esquema de corrupção que nos assombrou por anos, não sabe bem usar as palavras e tem temperamento impulsivo. Tem demonstrado confusão, condutas inadequadas, pois está diante de um momento muito desafiador. Talvez esse seja o momento mais desafiador da história para todos os líderes mundiais.

Na minha opinião, a crise de ontem nada teve que ver com o isolamento, nem com o uso de hidroxicloroquina. Já estava dentro dos planos do Ministério avaliar as curvas de crescimento de cada localidade, número de leitos disponíveis para conseguir organizar melhor as condutas. Achatar a curva é isso: fazer com que as pessoas se contaminem na medida em que a rede de suporte de cada local consiga dar vazão. Impossível pensar no Brasil como um todo, já que diverge em número de casos e qualidade de rede de saúde. A hidroxicloroquina também não é motivo de tanta comoção, já existe norma técnica para seu uso na Covid-19, feita pelo Ministério da Saúde.

Então, felizmente uma surpresa no fim do dia: os times resolveram se unir contra o real adversário, a Covid-19. O maior interesse deve ser salvar vidas. Que assim seja, sigo torcendo!

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