Sábado, 19 de Setembro de 2020

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Tito Guarniere O conteúdo faz o homem

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De acordo com o governo, os dispositivos têm como objetivo “harmonizar as ações de enfrentamento à pandemia do novo coronavírus”. (Foto: Carolina Antunes/PR)

O general Santos Cruz, que foi defenestrado de forma desonrosa por Bolsonaro, acha que muitos problemas do governo têm origem no “estilo” do presidente. Errado. Não é uma questão de estilo, mas de conteúdo. O capitão é assim, sempre foi assim e nada indica, depois de ano e três meses de presidência, que ele mudará.

Uma de suas facetas é a de valentão de rua. Ele compra todas as brigas e se não houver motivo ele mesmo provoca e vai para cima. Que ninguém o olhe atravessado. E nem pensem que dele virá uma palavra amistosa, um gesto amigável. Ele é incapaz de compreender razões e de entender o outro. Com ele não tem bandeira branca. Nunca lhe faltarão maus modos.

Um lado sombrio do capitão é o da falta de empatia, que conduz à ingratidão. No seu turno, a lealdade deve ser incondicional, mas só dos outros para ele, e não o inverso. Depois de eleito Bolsonaro já dispensou e mandou embora um bom número de companheiros de primeira e de segunda hora, ao menor pretexto ou mesmo sem pretexto algum.

Bolsonaro é uma personalidade de casca grossa, sem graça e espírito. O que o faz rir é o chulo, o escatológico, uma certa obsessão pela própria virilidade. O senso de humor, quando ele se arrisca no campo que não domina, degenera nos seus maneirismos rudes, suas obsessões.

Não é pessoa de se convidar para um bom vinho, um encontro cordial, onde se debatem temas relevantes e se alternam assuntos leves, triviais. Como Trump, ele não aprecia livros, nem jamais se aprofundou em algum tema ou assunto. Não cita autores nem frases espirituosas ou inteligentes. Dorme com um revólver na cabeceira, não com um livro.

Tomem nota: Regina Duarte, naquele deslumbramento, e na sua santa ingenuidade, não vai durar. Em breve será chamada para uma conversinha, nos termos, claro, do chefe. Descobrirá que “porteira fechada” e “carta branca” não é nada do que ela pensava.

O cinema, a arte, a cultura, economia, história, ciência e filosofia: em todas essas áreas a abordagem é limitada, superficial e preconceituosa. Seu mundo é feito de radares eletrônicos, de cadeirinhas de bebê, dos pontos na carteira de motorista, do horário de verão, e last but not least, das paranoias alimentadas da Virgínia.

Não é demais supor que as tropelias verbais que ele comete sejam uma forma de dissimulação: elas ocupam as manchetes da mídia e o noticiário, provocam reações, mantêm alertas e operosas as redes bolsonaristas. É o seu jeito de ser – as diatribes escondem a falta de um projeto para o Brasil.

Bolsonaro, na caserna, chegou a ser punido com cadeia e respondeu inquérito por uma acusação pesada. Foi absolvido por 9×4 no Superior Tribunal Militar. No olhar sutil de uma amiga arquiteta, em meio às atribulações do mandato, o capitão encontra tempo para desfrutar de uma doce vingança contra os superiores que o puniram.

Agora, os seus três auxiliares mais próximos são de alta patente. O capitão tem entre os seus subordinados, que pode chamar a qualquer tempo e dar ordens de comando, três generais. Ele deve estar feliz e plenamente realizado.

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