Sexta-feira, 27 de Novembro de 2020

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| Saiba como o Vietnã manteve o país sem mortes por coronavírus

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Curva de novos casos confirmados de coronavírus no Brasil reverteu tendência de queda. (Foto: Reprodução)

“Se eu estivesse em quase qualquer outro lugar do planeta, eu estaria morto. Eles teriam desligado o interruptor depois de 30 dias”, diz Stephen Cameron, deitado em seu leito de hospital.

O piloto escocês de 42 anos passou 68 dias com um respirador, mais tempo do que qualquer paciente no Reino Unido. Mas isso não aconteceu na sua cidade natal de Motherwell, no Reino Unido, mas sim em Ho Chi Minh (antiga Saigon), no Vietnã — sem qualquer amigo ou familiar por perto.

Cameron foi o último paciente de Covid-19 em uma UTI no Vietnã. Ele foi também o caso mais grave que os médicos do país enfrentaram desde o começo da pandemia.

O país de 95 milhões de habitantes só teve poucas centenas de casos confirmados, poucas dezenas de internações em UTI e nenhuma morte. O caso de Cameron era tão raro no Vietnã que mereceu cobertura ampla da imprensa local para cada novo desdobramento.

Ele agora ficou conhecido nacionalmente como “Paciente 91”, apelido recebido em março, quando foi internado.

“Sou muito grato por como fui acolhido nos corações dos vietnamitas”, disse Cameron à BBC. “E, sobretudo, sou grato à tenacidade dos médicos em não me deixarem morrer sob sua guarda.”

Dezenas de especialistas vietnamitas fizeram diversas reuniões para discutir a condição de Cameron.

“O número muito baixo de casos críticos permitiu que qualquer um em estado grave ganhasse a atenção dos clínicos mais graduados do país”, explica Kidong Park, o representante do Vietnã na OMS (Organização Mundial da Saúde).

Durante boa parte dos dois meses e meio que Cameron ficou internado em coma, ele dependeu de uma máquina Ecmo, uma espécie de suporte de vida usada apenas em casos extremos.

As máquinas extraem sangue do corpo do paciente e colocam oxigênio nesse sangue, que é reintroduzido no paciente.

“Eu tenho sorte que o único efeito duradouro disso parece ser que minhas pernas não têm mais a força para me segurar, mas estou fazendo fisioterapia duas vezes por dia”, disse Cameron.

“Em um determinado momento, meu amigo Craig ouviu do Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido que eu tinha 10% de chance de sobreviver, então ele já se planejou para o pior — ele se livrou do meu apartamento e começou a fazer as coisas que alguém faria se pensasse que eu voltaria para casa em um caixão.”

Desde que retomou consciência, teve várias conversas telefônicas chorosas com amigos que estão no Reino Unido que “não imaginavam que eu fosse voltar”.

Médicos tiveram de lidar com várias complicações quando Cameron esteve em coma. Seu sangue ficou extremamente pegajoso, formando coágulos. Seus rins falharam, necessitando diálise. Sua capacidade pulmonar desabou para apenas 10%.

Quando Stephen Cameron foi colocado em um respirador no começo de abril, havia pouco mais de um milhão de casos de coronavírus no mundo. Quando os médicos o acordaram, no dia 12 de junho, havia mais de sete milhões. Mas o Vietnã evitou o pior. Não há um registro de transmissão comunitária da doença desde 16 de abril.

“Eu nunca imaginei que levaria dez semanas para acordar de novo. Eu lembro de ser acordado, eu lembro da traqueotomia. Eu lembro de ser levado em cadeira de rodas pelos corredores do hospital — depois, os outros dias são uma confusão.”

Do seu leito de recuperação em um quarto no Hospital Cho Ray, para onde foi transferido após sair do respirador, Cameron está sentindo as consequências dos vários meses sem se mexer em que esteve gravemente doente.

Ele perdeu 20 quilos e seus músculos estão tão fracos que é difícil para ele levantar suas pernas por poucos centímetros. Ele também está sofrendo com fadiga extrema e depressão desde que acordou, e está com medo de sofrer estresse pós-traumático.

“Eu passei por muita coisa, mentalmente. Agora tudo que eu quero é voltar para casa. Sinto falta da quietude e do frio. Há tanto barulho de buzina de motos aqui e é temporada de monções. Quinze graus para mim em casa seria perfeito.”

Seu atendimento médico não foi gratuito. Uma máquina de Ecmo custa algo entre 5 mil e 10 mil dólares (R$ 26 mil a R$ 52 mil) por dia. Ele usou a máquina por oito semanas e meia.

A disputa agora sobre quem deve pagar essa conta é algo que está estressando Cameron e dificultando sua recuperação. No início, o Hospital de Doenças Tropicais de Vietnã pagou os custos. Parecia que a Embaixada britânica fosse ajudar. Eventualmente seu seguro de saúde pagou por tudo. Mas ainda é preciso pagar pela estadia no Cho Ray Hospital.

Cameron está com viagem marcada para o Reino Unido no dia 12 de julho. Os voos entre os países foram retomados há uma semana.

Seja como for, o caso da recuperação milagrosa do Paciente 91 não é apenas a história de um piloto escocês que conseguiu desafiar as probabilidades e se curar de Covid-19. É também uma história de sucesso de um país emergente com uma história recente bem turbulenta.

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