Quarta-feira, 19 de Fevereiro de 2020

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Agro Os queijos e a charcutaria são destaque em Santana do Livramento

A propriedade é administrada pelo casal Gaspar Desumont e Graciela Bittencourt

Foto: Graciela Bittencourt
A propriedade é administrada pelo casal Gaspar Desumont e Graciela Bittencourt. (Foto: Graciela Bittencourt)

O Terroir da Vigia fica em Santana do Livramento, no Rio Grande do Sul. Na propriedade, com 70 hectares, o casal Gaspar Desumont e Graciela Bittencourt cria ovelhas e porcos, planta uvas e oliveiras, com dedicação especial também à produção de queijos artesanais e charcutaria. Mas não fica nisso. Os vinhos entram nesta história com muita peculiaridade.

Experiência não falta a Gaspar. Nascido na França, no Vale do Loire, exibe familiaridade com a vitivinicultura. Com mestrado em agricultura, escolheu o Brasil pelas suas peculiaridades e diz que o objetivo é “plantar para o futuro, pois o País produz sem valor agregado e é importante mudar tudo isto porque aqui há riquezas em terra e solo”.
Por isso mesmo, ao optar por lançar sua marca de vinhos no mercado – a Vinhética – buscou fornecedores de uvas de diferentes regiões do País, a fim de obter o melhor de cada terroir. “O Brasil é tão grande que não precisamos produzir tudo no mesmo lugar”. Consciente da força do agronegócio brasileiro, ele reitera que “a França dava comida à Europa, hoje o Brasil fornece para o mundo todo”. Algumas uvas chegam da Serra Gaúcha, “onde está o melhor terroir para o espumante”. A região da Campanha Gaúcha fornece as uvas para os tintos e rosés e, para os brancos, a escolha recai nos Campos de Cima da Serra e Planalto Catarinense. Com uma produção de 15 a 20 mil garrafas por ano, processadas em Caxias do Sul, a produção da Vinhética tem como principais destinos os mercados do Rio de Janeiro, São Paulo, Recife e Brasília.
No Rio de Janeiro, em São Paulo e recentemente também em Porto Alegre são comercializados os queijos produzidos artesanalmente no Terroir da Vigia, totalizando seis variedades no momento. Segundo Gaspar, a produção, que chega a 400 quilos/mês não se baseia em receitas de outros centros de referência, “são queijos únicos, não precisamos imitar os europeus porque o Brasil é rico e também único em seu terroir”.

Quem teve a oportunidade de saboreá-los foi o chef gaúcho Jorge Nascimento, que conta ter servido a amigos dois deles como amouse bouche (aperitivos) durante um jantar. “O Feta é macio, fresco, delicioso e com salga muito boa e equilibrada”. Já o Etchêkoa, carro-chefe do Terroir da Vigia, “tem sabor delicado, instigante na boca, cremosidade fantástica, uma experiência repleta de muito sabor e descobertas dos sentidos”.
A aceitação dos consumidores pelos produtos do Terroir da Vigia no centro do País impulsiona o casal a outros desafios. Um de seus projetos é o resgate da raça suína Moura, que vem sendo muito apreciada pela qualidade da carne. É neste segmento que o casal lança com ineditismo um projeto piloto que visa difundir a raça na região, numa espécie de criação em cadeia.

Gaspar enfatiza que doa a interessados uma fêmea prenha ou pronta para a cruza, recebendo de volta um macho no mesmo peso, visando seu abate e a expansão da produção de presunto cru, salame e copa entre produtos comercializados. A ideia é ampliar a linha de embutidos. “Queremos expandir a partir daí a raça Moura, com outros criadores atuando desta mesma maneira”.
Na ovinocultura, a proposta é similar, com o incentivo àss pessoas a terem um rebanho leiteiro a partir da doação de borregas, com retorno de machos em torno de 18 meses, “doando uns para os outros, repicando este rebanho”. Além disso, o casal também inova com o cruzamento da Lacaune, raça francesa leiteira, com a Crioula, mais resistente por ser adaptada ao ambiente.

Nos planos, o aumento da produção da propriedade em relação às culturas de oliveiras, bem como de uvas, passando a produzir em alguns anos os rótulos de vinho do Terroir da Vigia, e também a criação de abelhas nativas para a produção de mel. Além disso, o olhar de Gaspar recai sobre a sustentabilidade, através da plantação já iniciada de milho crioulo e mandioca orgânica, usados na alimentação dos suínos, assim como bagaço de uva (resíduo da produção de vinho) e soro de leite (resíduo da queijaria). Os porcos são criados soltos durante cerca de 15 meses, com uma boa alimentação, o que garante a qualidade da carne. “Quase tudo é produzido no campo”, salienta Gaspar. “A melhor maneira de produzir na mata nativa é focar no econômico”. Ele acredita no Bioma Pampa e diz que é preciso valorizar a terra com um olhar à sua diversidade, ou seja, “se voltar ao natural, utilizando o caminho brasileiro”.
O casal planeja receber, em maio, profissionais do País Basco especializados em criação de ovelhas leiteiras, a fim de iniciar uma parceria e um intercâmbio com a Campanha Gaúcha, para, mais tarde, enviar pessoas daqui para se especializar lá. A iniciativa é uma das ações voltadas para somar esforços às propostas do casal de pluralizar a propriedade, apoiada em tecnologia e conhecimento, gerando produtividade com excelência, se valendo do que a terra tem de melhor. “A gente acredita em produtos novos”.
Gaspar diz ainda que a França só obtém excelência em sua mesa porque soube explorar produtos e ingredientes em momentos de escassez como na Segunda Guerra, por exemplo. “Queremos desenvolver toda a cadeia no Terroir da Vigia, futuramente”. Gaspar e Graciela também projetam abrir as portas da propriedade à visitação de turistas, visando a amplitude de sua marca com maior visibilidade. (Clarice Ledur)

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