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A racionalidade é uma pretensão humana?

Apunhalar Bolsonaro, ferindo o mais elementar do Direito, o direito a vida, sangrando as liberdades civis é apunhalar, covardemente um pouco de cada um do cidadão brasileiro. (Foto: Reprodução)

Era praticamente uma unanimidade passiva. Como quem atuou por pouco menos de 20 anos na vida pública e dela se afastou (vou avisando logo: sem ser condenado, nem sentenciado, nem processado, nem indiciado, portanto, ficha limpa antes dela existir) por livre e espontânea vontade, tendo sido secretário de Estado, deputado federal, Senador da Republica e duas vezes Ministro, sou alvo de costumeiras perguntas: “O que o senhor acha dessa eleição? Quem lhe parece que vai ganhar? O senhor já definiu o seu voto? Pode revelar? Ou é segredo por que ainda pode mudar?”.

Esse tipo de indagação é feita por mais moços e menos moços; por partidários e por descompromissados de filiação; por homens e por mulheres; por atuantes no ambiente partidário e por aqueles que deixaram a política e não mostram interesse nem com a proximidade das eleições etc etc. Para eles, o tema está num arquivo quase morto de sua memória, desclassificando o ao elaborar a lista das suas prioridades pessoais. De qualquer maneira parecia que, com a definição do quem é quem (isto é, deliberado, pela Justiça Eleitoral, quem é e quem não é – ou não pode ser – candidato), a cessão de espaço no rádio e na TV aberta para os partidos políticos e seus candidatos, na chamada propaganda eleitoral, eletrônica e gratuita (gratuita é uma mentira: as emissoras que, por lei, tem de ceder seu espaço. São recompensadas pelo abatimento no Imposto de Renda que estariam obrigados pagar). Estava iniciada na prática a campanha. Falo, voltado unicamente para a campanha presidencial, posto que, num país onde Poder mesmo é o Executivo, que pode quase tudo e, quando não pode, edita uma medida provisória, desrespeitando até a Constituição, e se apropriando, depois de certo tempo, por usucapião de competência que não era sua.

De qualquer maneira, tormentos e tormentas, com o surgimento para a vida pública de siglas que só não tem filiados, muito menos eleitores mas tem estatuto registrado e algum deputado “baixo clero” que aderiu para adonar-se, mercantilmente, da legenda, celebram-se coligações, muitas vezes do nada com a coisa nenhuma. São trinta e cinco (35) partidos – faz de conta que a gente acredita e a Justiça também – na sua maioria verdadeiras “corretoras” de espaço (quem sabe mais apropriado) chama-las imobiliárias públicas que administram a comercialização do precioso tempo de propaganda, em nome de uma parceria que não leva em conta na sua formação qualquer afinidade. Forma-se uma coligação “fantoche”, sem princípios ideológicos sem a identidade do candidato e, muito menos compromissos com políticos públicos.

Enfim, com todas essas peculiaridades – é mais elegante chama-las assim – houve etapas vencidas, produzindo resultados na pré-campanha que, se fora na Fórmula Um, valeria para definir a colocação do candidato no grid de largada.

O aguardo do resultado das primeiras pesquisas gera ansiosa espera semanal dos candidatos que, na baixa, dizem que nelas não acreditam, quando, na verdade dobram a ansiedade esperando pela próxima; na alta, reproduzem, com alto falantes poderosos o resultado favorável, destacando a seriedade e a confiabilidade da consulta que, atestaria antecipadamente a sua (dele, candidato) vitorioso.

Assim marchou esse jogo de freios e contrapesos de uma campanha, aqui no Brasil, na prática, o primeiro, nas pesquisas, tinha fundados impedimentos que o inabilitavam a concorrer. De qualquer maneira, com recursos sobre recursos. Proporcionou-se a venda de ilusão e de interesses no intuito de negar o obvio. Prorrogaram – numa auto enganosa – estratégia de morte (com parcial ressurreição anunciada), celebrada num enterro de luxo, com um “coveiro” (ficha um na fila) e até moça suplente tinha e tem que findou agora. E acabou-se o sonho ou o pesadelo (mais provável) do Lula “ficha suja” candidato. Neste momento, chegou a hora de o PT, já com atraso, botar seu possível time em campo.

Do outro lado, numa versão oficiosa, sob possível (diria mais: provável) demência, um crente religioso, que poderia ser – ou não? – de esquerda, apunhala o candidato Bolsonaro, com a fúria de quem quer assassinar a democracia. Independente de gostar, ou não, do candidato, não há dúvida de que ele foi vítima da insegurança em que vivemos e do radicalismo do “nós contra eles”, da inexistência do diálogo, inclusive quando e por isso mesmo – imprescindível se assegurar o contraditório.

Lula definitivamente fora – condenado, na cadeia – e Bolsonaro, ferido, parcialmente incapacitado, gerou, como efeito imediato, o passar a régua no processo e entender que o recentemente ocorrido é tão forte que o que iria suceder – bastante presumível – é “bola ao centro”, que um novo jogo vai já começou. Índices de pesquisa a favor, números de rejeição contra, conceitos radicais e agressões incontroladas, vai tudo para o baú dos esquecidos.

Ganhará quem, ante o novo contexto e a reviravolta que dele ocorre, saiba harmonizar-se e humanizar-se, transitando pela estrada de curvas da sensibilidade das ruas, sentir com a vontade do povo, que pode não ter partido (mas tem) e terá querer.

Entende-lo, antecipadamente, será encontrar o fruto de onde se extrai a poção mágica da vitória, não de uma pessoa, mas de uma causa.

EPISÓDIO BOLSONARO

Importante é respeitarmos o cidadão e orienta-lo para que, conscientemente, se possa respeitar.

Apunhalar Bolsonaro, ferindo o mais elementar do Direito, o direito a vida, sangrando as liberdades civis é apunhalar, covardemente um pouco de cada um do cidadão brasileiro.

Campanha eleitoral pode – e deve – ser disputa de programas, batalha de ideias, guerra de conceitos. Tentar calar o candidato Bolsonaro, matando-o, é prova de que a racionalidade é apenas uma pretensão e não um ingrediente constante da espécie humana.

Longe de ser uma garantia que todos os descendentes “homem de NEANDERTHAL” dela disporiam, por isso, concordo com Lawerence quando diz: a vida de uma pessoa – há quem diga – pode não valer nada; mas não há nada que valha a vida de uma pessoa.

 

E a campanha?

O que está faltando mesmo nessa estranha campanha eleitoral brasileira é o povo, parece que eleição não tem nada a ver com ele. (Foto: Agência Brasil)

No mercado livre das lembranças, recordo, um domingo de sol, em Paris, há quantos anos não sei exatamente – mas não há dúvida que há muitos – intrometi-me no eleitorado “gaullista” que ocuparia todas as instalações de um grande auditório – três mil lugares – e vibrava, com bandeiras e cartazes, no apoio do candidato George Pompidou, que, pouco depois seria vitorioso na eleição presencial. Havia cores e cânticos. Vibração espontânea que se eletrificou quando o candidato, na hora prevista, subiu ao palanque. Era apenas a confirmação de que eleição na Europa tinha cara e jeito de eleição, principalmente quando, após o discurso, entremeado de vivas e palmas, o candidato descia da tribuna e vinha abraçar e apertar mãos de vibrantes correligionários que, pelo jeito, era aquilo mesmo que esperavam.

Na Espanha, na primeira ou segunda eleição parlamentar pós-Franco, o desfrute de uma democracia conquistada fazia do pleito instrumento vivo da liberdade que alguns haviam perdido e muitos nunca haviam exercitado: um momento radioso dessa nova sociedade que surgia. Em Madri, nas Cercanias de Arguelles, pude incorporar-me na passeata numerosa, rumo a Plaza de Espanha, onde já estavam outros milhares de correligionários, também chegados dessas verdadeiras “procissões do encontro”. Era a consagração popular do “cérebro” do Pacto da Mocloa, o líder centrista e equilibrado Adolfo Suarez. Jovens e velhos, com camisas coloridas, levavam pancartas – era assim que se chamavam – e repetiam, em uníssono, palavras de ordem. Num palanque armado na Praça, Suarez, empolgado e empolgante, falou vinte minutos e levou o dobro do tempo para “safar-se” do contato individual com incontáveis partidários (Centro Democrático) que o ajudaram a vencer a eleição e fazer-se primeiro Ministro. E a campanha eleitoral, antevéspera de eleição, era para todos, vibração, engajamento e convicção animadora – as vezes até inexplicável – de vitória.

Voltando, como de rotina, da Universidade de Roma, onde fazia pós-graduação, acomodado, sem muito conforto, no ônibus 63, horário das cinco da tarde, deparei-me com uma passeata do Partido Comunista que, em plena democracia italiana parlamentarista, era a segunda força política, amparada pela maior Central Sindical (CGIL). Desfilavam – e deviam ser milhares – animados, mas ordeiros, ocupando uma das pistas da avenida, de modo que o trafego continuasse a fluir. Notava-se a influência da disciplina sindical nos alinhamentos e temas dos cartazes (ficava claro que eram comunistas mas não alinhados com a Rússia), que até podia ser a saída de macro assembleia classista. Curioso, organizei-me para assistir, dois dias depois, similar espetáculo, atravessando a via de la consolazione – causal trajeto, pareceu-me – que é o caminho mais direto para o Vaticano. Era a passeata da Democracia Cristã que, na época e por muito mais tempo, majoritária, governou a Itália, com respaldo da CISL, a segunda maior central sindical do país. E, para ser breve, lembro de padres (relembrando o engajado e, à época, popular Dom Camilo) e freirinhas entusiasmadas no desfile, onde se misturavam fanáticos e tranquilos adeptos, todos, naquela ocasião, vivendo a emoção do pleito que, sem ela, seria um corpo intato, sem vida, mantido no formol.

Aqui e agora, estamos a seis semanas do pleito, aproximadamente.

Eleição que envolvera disputa para a Assembleia Legislativa (55 vagas), Câmara Federal (31 vagas), Senado da República (2 vagas), Governador do Estado e vice, Presidente da República e vice. Caminhava-se pelas ruas e não se enxergava uma janela era o plástico de um misero candidato (há tantos, podia até ser um vizinho) a deputado estadual, por exemplo.

Os automóveis estão com seus vidros impecavelmente invictos, numa declaração muda de que não se teve qualquer envolvimento com o chamado, pomposamente, de evento cívico que deveria – e deve – por direito e por dever, envolver a todos.

Lembrando, tempos passados, na Europa, movida a eleições participativas ou, por exemplo, do pleito recente – até demasiadamente disputado do que se alega – nos Estados Unidos (Trump x Hilary: espionagem, comícios, denuncias, vitória legal de quem teve menos votos), a campanha é vitamina insubstituível para um pleito que não seja apenas legal – e isto é impactante – mas legitimo, sobretudo, legitimado, por quem tem competência exclusiva de fazê-lo representativa.

O que aconteceu e porque não acontece, aqui e agora, uma verdadeira e necessariamente popular a campanha? Quais seriam os motivos: Antecedentes que desestimulam, pretensos líderes em conflitos afastados – até presos – partidos que nada significam, candidatos que não empolgam, mudança que se quer ou que se teme?

O que está faltando mesmo nessa estranha campanha eleitoral brasileira é o povo, parece que eleição não tem nada a ver com ele.

O assunto é importante e complexo. Voltaremos a ele!

Um dia de outubro

Findara um dia primaveril de outubro, deixando lembranças sem vestígios. (Foto: Reprodução)

A vidraça, que o separava do vento forte, dava, com sua transparência, a possibilidade de ver o movimento ritmado das águas da Lagoa. São ondas frustradas. Queriam ser marítimas: volumosas, elevadas. Às vezes, (até sem querer, é verdade), assustam os não iniciados aventureiros.

Mas o que via era um ritmo movimentado mas ordeiro de águas; a um tempo, livres e, logo, submetidas. Um pouco como nós próprios: cidadãos de direitos e deveres.

A vidraça continuava ali. Imperturbável. Refletia, sem esforço, a sua imagem? Olhava-se, embaraçado e curioso, ao notar que não se via refletida como se imaginava. Flagrou-se absorto ao não ver o que queria. Estava em busca de perguntas e/ou respostas para temas – tantos e tão diversos – que de uns tempos para cá, se apropriaram do mundo das suas inquietações.

Como no pensamento do Bernard Shaw, agora ele teria tempo para “fazer” seu futuro, só que, provavelmente, não teria futuro para aproveitar.

A lagoa, que banhava suas margens arenosas, fazia-se sinuosa, exibindo-se aos raios de sol das quatro da tarde de um doze de outubro. Era uma daquelas datas de semi-feriado. Os alcançados pelo dia homenageado e homenageante não trabalhavam porque estavam para sua felicidade gozando de um “dolce far niente” oficial. Os outros porque invocavam uma equiparação amparada, falsa mas simpaticamente, num “direito” bizarro, com jurisprudência informal arquivada na biblioteca do ócio. Deliciavam-se com o não fazer chancelado pelo costume.

Mas não era por isso que, ao ver-se na vidraça, parara de andar. Algo recomendava que, ali e já, devia fazer um pit-stop. Obedeceu a convocação que lhe parecia, surpreendentemente, endógena e exógena. Vinha de algum ponto do seu íntimo e se associava a um chamamento externo.

Sentou-se. Apoiou os cotovelos sobre a mesa que – quando havia “encontro familião” – virava a copa dos eventos.

Mais de uma vez, depois de ultrapassar os 65 anos (e disso já fazia algum tempo), por estranha coincidência, recebera más notícias, quando por ali estava: a enfermidade já metástase, então incurável, da companheira que era um pedaço valioso (de si próprio); da morte de dois amigos (amigos mesmo, cujo número se esgota na contagem dos dedos da mão), vítimas de velocidade excessiva; verdadeiro suicídio rodoviário etc.

Assim como ocorreu quando sua mãe morrera – ela por quem tinha, no seu simbolismo infanto-juvenil, um sentimento “em segredo” de esperança convicta de um dom ou de um poder – não importava – de imortalidade. Morrera, depois de tanto lutar pela vida. Descansaria com a morte.

E nesse sofrido necrológio de afetos, já ia a ponto de recordar-se do … (um comando neurológico imediato e tachativo cortou as lembranças).

Dizia apenas: “chega de cultivar sofrimento sem retorno”. De repente, notou que estivera entre sonolento e adormecido. Tudo ocorrera num tempo interminável ou num momento fugaz.

O que (estaria despertado?) pode ver foi que já chegara, sobre a Lagoa, a cor do crepúsculo. Findara um dia primaveril de outubro, deixando lembranças sem vestígios.