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A imperfeição indispensável

O Homem, então criado, cometia erros, expondo suas falhas e fraqueza. (Foto: Reprodução)

ELE se descuidou e teria pecado por omissão: um erro maiúsculo. Julguei ter o direito de culpa-LO porque, assim, reconheci que ELE existe. E mais: temos fé que ilimitados são seus poderes; mas, quando falha – situação superlativamente raríssima – comete – ELE também – pecado capital (será?).

Errou, quando, no momento da criação, sendo Onisciente e Todo Poderoso, transmitiu o sopro de vida, com exclusividade, ao Homem, dando a sensação (porque assim circulou a notícia) que a Obra Criatura estaria perfeita. Verificou-se no logo dos tempos que, apesar de Sua sabedoria, enganara-se. O Homem, então criado, cometia erros, expondo suas múltiplas falhas e fraqueza.

Não ocultava estar longe do perfeito. Melhor: rigorosamente, poderia até ser padrão de imperfeição.

Foi ELE, propriamente ELE, com sua infinita sapiência, que se apercebeu do erro, Constatou que o Homem teria apenas a si próprio. O projeto esgotava-se num só modelo. Não oferecia sequer variações dentro do próprio gênero. Por isso, a monotonia dos iguais, a inexistência do “efeito espelho” (Sorokin, se não me engano), provavelmente levaria à irresistível demência o fruto da sua criação se não corrigisse logo, a falha. A Sua Criatura vivendo o repetido da uniformização pasteurizada, formaria o batalhão, exclusivo e sem alternativas, dos deprimidos. Não existiria outro destino: a uniformidade não criativa levaria ao silencio tumular dos sem identidade.

Foi por isso que ELE, tão pronto constatou, o ruim que estava e, sobretudo, pelo péssimo que iria ficar, criou a Mulher. Tomou como referência formal (modelo, não) o Homem. Acreditando ter, então, a chance da perfectibilidade, concentrou-se na tarefa, que lhe pareceu viável desde que não repetisse os defeitos masculinos.

Assim, a Mulher, que, por chegar depois, não pudera disputar a vantajosa primogenia, teria uma generosa compensação: seria perfeita!

Nem mesmo ELE poderia avaliar o quanto Sua Filha era (e é) indispensável, inclusive, com sua participação, viabilizando o processo, nos seus reais objetivos: pela perpetuação da espécie. ELA ajuda a fazer realidade a equação (dependendo como no pensamento poético de Machado, del “color de cristal con que se mira”) humano-divina da geração. É sócia igualitária (se não majoritária) dessa missão quase divina.

Mas, e sempre há um mas na vida, pronto a contraditar ou, pelo menos, a limitar o otimismo ilimitado, vizinho da euforia, que está no caso, ante a magia do projeto divino da perfeição. Assim nasceram as imperfeições.

O que ELE não esperava é que, ao se fazer humana, viajando do dever – ser para a realidade, aproximando-se do Homem e acasalando-se com ele na troca de atitudes inerentes à parceria, adquiriu a Mulher antídotos para enfrentar o desafio sempre surpreendente da vida. Com o que se fortaleceu, mas, ao natural, perdeu, também Ela, a perfeição com que fora concebida. Apesar disso, tenho a convicção que continua a ser a melhor imperfeição que ELE criou.

P.S: a respeito, minha memória ajudou-me, lembrando um painel de beira de estrada com um pensamento isolado (diria que sábio e simplório), proclamando com enormes letras pretas em fundo branco: “Quando Deus criou o homem, era isso que ELE teria em mente?”

Tenho minhas dúvidas…

O boné, a argola e a tatuagem

Será que o boné virado, a argola no nariz e a tatuagem só significam quero ser notado como “diferente”? (Foto: Reprodução)

Somos nós que escolhemos o que queremos e o que não queremos?

Porque vivemos numa democracia (que se fundamenta nas liberdades individuais e, reciprocamente, assegura que elas sejam respeitadas) a nossa vontade exercita mesmo livremente o seu direito de escolher? Podemos instrumentalizar o exercício desse direito potencial, desde que não signifique atropelo as permissões e/ou desrespeito as proibições constantes nas leis e, sobretudo, na Constituição Federal?

E a lei – inclusive a Carta Magna – de onde retira sua força impositiva para fixar marcos e espaços, ao mesmo tempo inibidores ou estimulantes?

É verdade que a força de uma norma decorre da legitimidade que detém quem a edita?

Sendo livres os cidadãos, lhes caberá, respeitando a regra de ouro operacional da democracia (a maioria prevalece, no decidir, sobre a minoria, assegurando-se a esta o direito de crítica e de fiscalização) ser sujeitos, obviamente, ativos do processo?

Creio que não há como – ao enfrentar um desafio intelectual – passar desatento sobre o Livre Arbítrio, a seiva que irriga o querer ou não-querer. Todos a trazemos durante nossa própria gestação (posição dos livre arbitristas radicais) ou passamos a te-la com o primeiro sopro de vida?

Ihering Jellineck e outros, apesar de argumentos valiosos na defesa do Livre Arbítrio viram-se diante de uma proposta contrária: o determinismo de Taine.

Há, na própria discussão do que é e para que é o Direito, um entendimento que o Livre Arbítrio seria o fundamento psicofilosófico do Direito Natural. Não é totalmente lógico?

De qualquer maneira o Livre Arbítrio (a meu juízo) é quem nos deu (e dá) o pensar, a melhor das virtudes intelectuais do ser humano que lhe permite programar, projetar, avaliar, criticar ou aplaudir: temendo a Morte e saudando a Vida.

É o Livre Arbítrio cercado e cercando o protagonismo agressivo dos seres humanos, movidos pelo apelo de querer mais, mais e sempre mais, porque nascemos com ele e morremos com ele, o responsável por esse perfil e pelo tal modo de agir de cada um de nós? Ou tal atribuição é uma demasia?

Será que a atualidade com esse mudar incontido – em velocidade que, na História, jamais se poderia sequer imaginar – questionando preceitos, hábitos, enfim, até dogmas, que pareciam vocacionados à perpetuidade, estará satisfeita com um ajuste transitório ou exigiria a ruptura definitiva?

Por isso, a cada dia e no espaço de cada um, decisões são tomadas: são exclusiva e genuinamente minhas ou são frutos das circunstancias que me cercam?

O reagir – às vezes, inesperado – ao convívio rotineiro, antes aberto e atrativo, hoje sucedido (ou substituído) pelo equipamento tecnológico (multifuncional) é contestação do indivíduo, querendo liberar-se da monotonia do mesmo “prato feito”, sustentado pelo argumento do “sempre foi assim…”?

Será que o boné (novo símbolo?) virado, a argola no nariz, o quase ininteligível – especialmente para os não iniciados – linguajar sincopado, a preferência submissa pela companhia do pequeno e multifuncional aparelho que “antigamente” se chamava celular, a tatuagem, que tanto mostra como esconde, com dragões e com juras de amor que duram a eternidade de um solstício e tantos outros procedimentos, só significam quero ser notado como “diferente” ou querem dizer que estou na linha de frente pela mudança radical?

Será que lutando contra certas posturas as personagens do novo tempo querem nos dizer que o seu propósito não é apenas fantasia passageira, mas mensagem múltipla de quem está chegando descomprometido com o que era (e talvez ainda seja) mas deixará de ser?

Será que estão a mostrar – e desconfiam que não entendemos (ou não queremos entender) – o traçado preliminar de uma nova sociedade, que não sabem como será e como se fará, mas sabem que será diferente da atual, que – como acusação – dizem ser “só nossa” e, por isso, estar agônica. Será?

O circo ilusório

Voltemos à realidade forjada do Big Brother e cairemos na equação da irracionalidade. (Foto: Reprodução)

A dominação midiática não significa garantia de democracia. Equilibrada, tem seus méritos. E muitos. Parcial, comprometida, fica perigosamente viciada.

Digo isso às vésperas de uma nova edição do chato, por repetitivo e paupérrimo de criatividade, programa de doentio delírio de espiar. Por não acompanhar além de 2 ou 3 capítulos para falar como testemunha ocular, dispenso-me do detalhe, posto que se a minúcia é intelectualmente só, carente de um pedacinho de animadora inteligência, o todo nos desafia a descobrir o por que a idiotice desperta tanta curiosidade. Mais que isso, interesse.

Não se pode – nestes tempos de um narcisismo que nasce sem raiz e de um crescente aderir a ideia de que a vida é uma só e esgota-se em si mesma – passar, sem notar, fatos que, surpreendentemente se tornaram determinantes do feitio do hoje. Seria um pecado, render-se a chance de ver que poderia ser falsa ou verdadeira a luminosidade do viver. Seria? Voltemos à realidade forjada do Big Brother (e a programas de outras emissoras, que copiaram seu perfil) e cairemos na equação da irracionalidade.

Sabemos que a civilização do nosso milênio é de um pragmatismo agressivo. Mais do que isso. Utilitarista, ao produzir um bem (automóvel, por exemplo) não para durar, mas para aparentar e ser consumido.

Faz-se a sociedade pensar que ela sabe o que quer e se produz segundo o padrão de um consumo garantido e com a não – confessada, mas óbvia proposição de que a novidade “espetacular” de hoje seja a sucata de amanhã. Cumpre-se o ciclo alimentado pela fecunda nem sempre feliz, UIC (União Instável do Consumo) – que, na sua descontrolada versão gera a viciosa dependência e leva ao delírio enlouquecido do consumismo – que, somado com a inventividade da tecnologia, atraente e desafiadora, pode levar até um delírio enlouquecido.

Tal modelagem é fértil e até dissimulada. Criou-se para permitir um aparente regramento de liberadas práticas, das quais resultou um ser que muitos, quase todos (e seus descendentes) dizem, simultaneamente, constituir e obedecer.
O Big Brother, (e seus descendentes) na sua lucrativa, elementar e intelectualmente pobre versão – exemplifica uma proposta em que cidadãos – desejosos de expor-se, submetem-se a qualquer degradação – para vender a privacidade que nunca valorizaram – desnudando-se – física (que, às vezes, até tem muito) e mentalmente – que tem o pouco. São (ou se tornam) palhaços (não os respeitáveis profissionais), sem arte, desfilando num picadeiro eletrônico que os leva do ridículo ao deselegante.

E quantos mais votarem, mais ganha quem monta e mostra o espetáculo, porque arrecada-se em função dos “votos dados”.

Mas há muito mais: estimulado e estimulando a quebra de privacidade cresce em milhões a plateia que a eletrônica vai buscar em toda parte significando o aumento por numerais milionários da audiência do programa e, obviamente, permitindo que o canal, com esse argumento, aumente a receita publicitária.

Em síntese, “atores” ridículos e apostadores que optam por ser enganados, alimentam, com o pouco de cada um, que, somado entre tantos vai a muitos milhões, servindo para enriquecer, quem já é rico e contribuir para o empobrecer, com a anestesia do jogo, quem já é carente.

Os romanos, naturalmente, dominavam o povo com “pão e circo”. Aqui, também se domina, mas sem distribuir o pão e arrecadando as moedas que os romanos não arrecadaram.

É a contemporaneidade, feita do circo ilusório e do consumo vicioso.