Últimas Notícias > Colunistas > Carlos Alberto Chiarelli

A pretensão de receitar

(Foto: PR/Divulgação).

Quem seria? Ou melhor, quem será? Conhecidos e/ou desconhecidos, ao reconhecer-nos, fazem a pergunta: a gente sabe que o senhor saiu (faz anos) da Política mas teve um bom tempo por Brasília, atuando em assuntos importantes. Deve estar bem informado!

Explico que me retirei (espontaneamente) da vida pública há cerca de 25 anos. Como cidadão, acompanho as efervescências da política, instrumento para, vivida e praticada com seriedade, encaminhar a participação da sociedade nas decisões de seu destino.

Acredita-se que Péricles, Solon e outros que tais estabeleceram, na Grécia clássica, uma relação respeitável entre o Poder e as camadas mais influentes da população. Logo, uma democracia seletiva.

Com o tempo, e muitos ideais e idealistas, as lutas continuadas foram assegurando, as custas de muito sangue, que se alargasse o rol dos partícipes no direito de influir (a criação do voto; a sua periodicidade; o faze-lo secreto até a universalização do direito de escolher livremente o votado).

Assim, se chegou (?) à democracia que, na opinião realista e crítica de Churchill, é um sistema cheio de falhas mas não existe outro melhor.

Hoje, é desse sistema que dependemos para construir uma saída honrosa e honrada. Diante da reação da sociedade brasileira que há 3 anos, ocupou as ruas, sem vínculo partidário, para dizer que não suportava mais a impunidade, e a garantia criminosa que assegurava aos ladrões governamentais, empresariais, sindicais, unidos, nas altas esferas do Poder, com legisladores, ministros e (por que não dizer?) magistrados, fora abalada. Não havia mais a tranquilidade desonesta de viver na realidade imoral do “crime compensa”.

Foi o mensalão o momento épico no esforço de provar que não haveria “intocáveis”, mostrando, a cores e ao vivo, as sessões da Suprema Corte por onde começou a desfilar a “Societa Sceleris”, formada de figurões criminosos. Era a República, nas suas entranhas, que começava a ser faxinada. Era um Partido que, na oposição, se fazia arauto da denúncia e modelo de austeridade, mas no realismo do poder se via acometido de uma incontrolável voracidade criminosa, assaltante dos cofres públicos.

Viu-se que o PT perdera o que nunca tivera. Famintos de Poder, “grandes líderes” apossaram-se do Estado e, sem receio nem constrangimento, realizaram a macro privatização peculiar: do patrimônio do Estado para o dos “bem aventurados companheiros”.

Já disse: isso foi muito, mas não era tudo. A exemplar operação “lava jato” (elogiável e eficiente) não deixou de cometer alguns atropelos, que não retiraram seus méritos reunindo, integrados, órgãos como a Polícia Federal, Ministério Público, Receita Federal e Magistratura, representados por seus profissionais. Uma geração já madura, mas ainda comprometida com o ideal e a esperança de bem servir. Foi, e É, o alargamento sem limites – que não os da lei – na investigação.

Desandou o palácio de cartas, sob o qual se haviam instalado titulados malfeitores, estrategistas de negociatas, criminosos associados, vindos dos Palácios presidenciais, dos “resorts” praianos, dos apartamentos de elevador exclusivo; das autoridades que alegavam não saber de nada mas é provável que tenham ficado com a maior parte do butim.; de parlamentares maculados, com a “merreca” do troco da propina; dos empresários, tidos como exemplares, cumplices de confessos delinquentes; de burocratas desonestos que se fizeram milionários, destruindo as estatais que deviam dirigir (?); enfim, de ladrões de todos os tipos, de diferentes ideologias (farsantes), de quase todos os Partidos. Mas não posso esquecer de responder a pergunta inaugural. Sou tentado a dizer que não sei; tenho opinião e vou revela-la. Não vamos procurar um “Salvador da Pátria”. Não existe. Nunca existiu. Não existirá. Necessita-se de parceiros íntegros, de parlamentares idôneos.

É o seu voto. Caro eleitor, o melhor higienizante para separar o joio do trigo. Bem utiliza-lo significa que o votante é merecedor do título de cidadão.

Repito, não há milagre a esperar; logo não há “demagogo milagroso” herói que fará, com um gesto divino, a salvação do país. A Pátria é que se salva pela mentalidade nova que valoriza o mérito e rejeita a esperteza aética; pela família reconstituída e exemplar; pela prioridade na educação; pelo combate continuado à impunidade.

Isso tudo, sem deixar de manter viva a fantasia do amanhã, como nos discursos de Jefferson: “gosto dos sonhos do futuro mais do que da história do passado”.

A construção da personalidade, a moldagem do caráter precisam da fantasia esperançosa do amanhã. Nosso país também precisa.

cagc@gmail.com

Ganhar um pouco mais, perder um pouco menos

(Foto: Reprodução)

A convicção era exposta nas palestras acadêmicas, nos encontros empresariais e progredia na visão pragmática dos políticos respeitáveis. Eram os que lideraram resistências heroicas contra o nazismo, o fascismo e mesmo contra o comunismo (Stalin era um “aliado” de quem se precisa muito mas de quem se desconfia muito mais).

O certo é que o pensamento indutor de figuras admiráveis como o alemão Adenauer, o italiano De Gasperi, o francês Jean Monnet desnudou o quadro de riscos pra lá de prováveis. A Europa, com aspiração democrática, que ainda sepultava os últimos de tantos que a Segunda Guerra matou; que tropeçava nas ruínas resultantes dos desvairados bombardeios com que a auto presunçosa espécie humana, paradoxalmente, deixa-nos duvidando de sua (nossa?) racionalidade, queria mudar.

O que a História revelava, examinando-se o panorama da civilizada Europa nos últimos tempos, era a sua incapacidade de viver em paz; às guerras, sucediam guerras.

No pós-guerra, de 1939 a 1945 celebraram os europeus os tratados do Carvão e do Aço, do Atomo, num procedimento de progressiva aproximação, lembrando que as parcerias os fariam sócios e não concorrentes agressivos. Prepararam o ambiente para que, em 1958, fosse firmado o minucioso e, ao mesmo tempo, objetivo Tratado de Roma, do qual foram partes Alemanha (então só a Ocidental), França, Itália, Bélgica, Holanda e Luxemburgo. Surgia a Europa dos seis. Nascia o Mercado Comum Europeu (MCE). Passa a viver-se um tempo de integração.

A Europa consorciada acreditou que descobrira a vacina antihecatombe, que já contribuiu – dizem os doentiamente céticos – ou já determinou – na crença sem ressalvas dos integracionistas – que se vencesse o século e se inaugurasse o novo milênio, sem guerra. Surgia Europa dos Seis, iniciante e temerosa pela precocidade de sua criação, hoje é a Europa dos 27 (vinte e sete). É a Europa do passaporte comum,  da cidadania comunitária, do Tratado de Segurança de Schengen, do qualificado Parlamento de Estrasburgo, do euro – que venceu  as previsões de mau augúrio dos derrotistas de plantão e se mantem a frente do dólar – das qualificadas instâncias administrativas sediadas em Bruxelas, alargando e regulando os espaços, que vão do futebol (Copa dos Campeões) à tentativa mais onerosa e avançada de descobrir uma versão definitiva e comprovada do nascimento do Universo (usando o misterioso túnel subterrâneo na Suíça, produzindo artificialmente ainda discutíveis réplicas (?) do Big Bang).

Essa a Integração que se alargou do MCE (zona de livre comercio parcial) para vários mandamentos da União Aduaneira). Com todas as crises da economia mundial, transformou-se, de estimuladora aberta de mercados, incorporando nacionalidades distintas e países diversos como, p.ex., a Eslovênia e Portugal, à saudável tarefa de criação e consolidação de uma (em fazendo) União Econômica. Nela, os parceiros assumem compromissos orçamentários; manejo cambial; diretrizes fiscais; políticas públicas de financiamentos com respeitada assimetria que aproxima os desiguais, na proporção em que desigualam, visando a estabelecer uma suportável aproximação da igualdade.

Essa a União Europeia que, apesar dos tropeços, jamais caiu. Soube, isso sim, apoiar – no limite do racional e do possível – seus associados (a Grécia é exemplo disso), com aportes significativos, inferiores aos desejados pelos gastadores, que se viram obrigados a apertar – e muito – o cinto da gastança.

A União Europeia que ganhou consistência no Tratado (década de 90) de Maastricht, uma espécie de apólice de segurança no quadro internacional, deu poucos passos – não havia clima – para chegar à meta final traçada: a União Política.

A notícia de saída de alguns que ameaçaram desligar-se e acabaram momentaneamente,  sem destino estratégico, foi um momento em que se fez lembrar o ensinamento de Leão XIII, na Mater et Magistra: “infeliz do homem só porque, na caminhada da vida, se tropeçar, não haverá quem, solidário, lhe dê a mão para evitar a queda”. Raciocínio Papal aplica-se ao indivíduo solitário mas também ao grupo de indivíduos quando reunidos  e misantrópicos reagem à ideia de parcerias  integradas.

Na História da retirada, só a Inglaterra decidiu sair, após ter o resultado de um plebiscito em que 51 a 49 de votos favoráveis fez vencer a ruptura. Os que se omitiram no plebiscito oficial, uma boa parte já paga o preço do arrependimento. A eles se dirá, como se diz que teria dito a Rainha  Isabel ao rei Fernando, chorava pela perda de Granada para os árabes: “não adianta chorares agora, como um fraco, pelo que não soubeste defender como um forte. Talvez um anacronismo mas que vale, mesmo com o passar do tempo, ante o dinamismo da História.

cagc@gmail.com

O cotidiano surpreendente

Vinte Mil Léguas Submarinas, Blade Runner (que retornou várias décadas para o agora) e Star Wars eram puro jogo de imaginação. (Foto: Reprodução)

Antes, as Vinte Mil Léguas Submarinas; bem depois, Blade Runner (que retornou várias décadas para o agora), Star Wars etc etc eram puro jogo de imaginação. Ou se dizia, na criatividade do passado não sabido – Planeta dos Macacos, por exemplo – ou se dizia, avançando no amanhã por um tempo que servia de cenário a um fictício afirmativo, até o exercício crítico criativo (1984) de George Orwell.

E parecia que se estava descrevendo máquinas, armas, invenções (inclusive outros planetas) enfim, que resolviam os problemas que a grande maioria não sabia sequer formatar. Houve um desfilar de espécies que, segundo seus criadores – normalmente literários – estiveram no passado mais ou menos remoto. Desaparecem, ultrapassando o limite impossível da sobrevivência, como o “monstro do Lago Ness”.

No entanto: o que me chama a atenção não são propriamente as criações intelectuais extravagantes do passado (algumas simpáticas apesar da incompatibilidade térmica do Papai Noel – simpático e bem acolhido – com seus capotes e velozes renas em pleno verão do nosso tórrido dezembro ou a relação com a Páscoa, pelo menos não muito lógica, com o coelho, os ovos presenteados e a prioridade alimentar do chocolate, (quando sabemos que coelho gosta de cenoura).

O que ocorre na prática do hoje aos olhos de quem, na marcha da vida, vem do ontem (ou talvez do anteontem) é uma fantástica inadequação à complexidade – para o idoso – da vida tecnológica, tão elementar para a neta (ou talvez para a bisneta), que move, nos teclados, com celeridade de fórmula UM, seus dedinhos precisos que sempre deixam em dúvida se é magia ou é milagre.

Hoje as pessoas sabem dos fatos pela breve nota das redes sociais (que as alcançam pelos caminhos do computador) onde as palavras são apocopadas, numa prática que as acolhe, sem conhecer como se formaram, e porque significam o que significam.

Alargou-se a mentalidade da crença na infalibilidade (para os católicos, na do Papa e, em situações exemplares, na de Deus). Agora é ato de fé outorga-la ao GOOGLE, a quem emprestamos o diploma da sabedoria que, nem os gregos atribuíam as suas PITONISAS.

Os tempos passaram e, diferentemente da canção do Chico, só Carolina foi quem viu. Homens e mulheres, por acreditarem num Deus ( que  creem benigno), tiveram – e tem – de caminhar desertos, de navegar em barcos frágeis de proa à popa, fugindo da perseguição de seus conterrâneos. Almejam chegar à nova vida que, na realidade, começará pela recepção hostil de autoridades autoritárias, que não sabem ou esquecem que as grandes potencias se fizeram ricas e poderosas, graças ao braço produtivo do migrante.

Hoje, o trapézio do circo e seus artistas andarilhos se substituíram pelo eletrônico programa de auditório contratado para aplaudir na hora do sinal combinado.

Hoje, nem sempre, mas muitas vezes, se faz a prova dos fatos com a versão da História que os delatores – também chamados elegantemente de “colaboradores” –  contarem.

Hoje, a perspectiva de notoriedade, na sociedade midiática, gera os delinquentes famintos de notoriedade como o assassino de Lennon, o Luther King e/ou os homicidas coletivos que matam por atacado sem saber a quem nem por que.

Hoje, a droga destrói o possível futuro do moço que se privou do direito de viver sem dependência e fe-lo, involuntariamente, ser o destruidor dos laços de família.

Hoje, se fala na Paz mas as guerras (na Servia, no Sudão, em Myanmar, no Afeganistão etc etc) matam impiedosamente porque produzimos, cada vez mais, armas “inteligentes” que são tanto mais valiosas quanto seu índice de morticínio.

Mas, enfim, hoje, também, no lado iluminado da Humanidade, vários cientistas receberam o Prêmio Nobel pelas descobertas benignas que fizeram.

Hoje, só nos desencanta e repugna ver a corrupção de políticos e compensa-nos lembrar que MANDELA também foi POLÍTICO.

cagc@gmail.com