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É só uma eleição, não uma guerra

Estamos estragando um processo eleitoral que tinha tudo para ser civilizado. (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Que quadro mais estranho, justamente os dois que tinham (e tem) razões para perder, acabaram ganhando.

E qualquer observador razoavelmente atento pode afirmar com segurança que a presença de A “ajudou” na vitória de B. E que a presença de “B” ajudou na vitória de A. É, respeitadas as circunstâncias, como a famosa guerra publicitária que ocorreu quando foi lançada a PEPSI e os croques publicitários forjaram uma “batalha” – naturalmente pré-programada – com a COCA.

O resultado foi um aumento do consumo da COCA e uma vigorosa entrada no mercado da PEPSI.

Acontece que PEPSI e COCA resolveram sua batalha no mundo do faturamento e, sobretudo, usando fartos anúncios, normalmente vistosos e de intrigante e inteligentes mensagens críticas.

A ideia fundamental era qualificar o seu produto mas, de alguma forma, ainda que criticamente, lembrando o outro.

Enfim, nada mais obvio que não fosse a mercadológica lição sociológica de Sorokin. De maneira acadêmica mas indiscutível, nós só existimos porque existe o outro (diz-se que a primeira ilusão foi a do espelho: e a pergunta que se demorou a fazer e muito mais a responder).

Nosso ancestral, de início ficou satisfeito com aquela imagem que lhe dava parceria mas a quem não tinha acesso. Foi uma luta por tempos longos até que chegássemos ao Bolsonaro e ao Haddad.

O que entristece é se ver o admirável sistema eleitoral brasileiro criticado, não por suas falhas, mas por seus acertos; não por sua tecnologia que enseja precisão, rapidez e segurança mas pelo boato ridículo que não tendo o que propor em troca alimenta-se (e alimenta) os pessimistas, incrédulos que querem ser os primeiros noticiar a mentira.

Há uma raiva no ar. Um voto no candidato que não é o meu, não é meu adversário. É meu inimigo. Não importa, muitas vezes, fazer o mais elementar questionário no fanático… Ele sabe pouco ou quase nada do seu candidato; não é capaz de citar um ou dois itens programáticos. Do seu candidato sabe poucas verdades; “do outro”, sabe até muitas mentiras.

Não vibra com seu candidato mas tem certo prazer em alimentar uma desdita do rival. O fanatismo invade a família que não é mais como outrora, um grupo homogêneo.

Agora, o jovem estreante ou o (a) maduro (a), recém participativo, traz pra sala a sua definição e se acha no direito de impor aos demais.

E se diz que tudo se faz pelo bem da democracia. Como se ela pudesse ou devesse ser imposta.

É uma pena. Estamos estragando um processo eleitoral que tinha tudo para ser civilizado; mas o pior é que, incrementados os conflitos, os ódios, a agressão irresponsável estamos preparando um cenário para o depois da eleição; um clima caótico, no qual as violências se multiplicarão. Por parte dos perdedores, porque o resultado não foi justo, nem certo. Por parte dos vencedores, porque a maioria dos votos lhes dá o direito de fazer o que não é direito.

Ainda é tempo de sermos equilibrados.

Pelo menos, civilizados.

O que importa, num quadro com esse, onde se atropelam gestos irracionais, onde se repetem os ataques ferinos, onde a verdade é desrespeitada e onde a versão infundada empresta fé ao boato, acredito que talvez seja momento de abriga-los na frase lapidar de H.W.Wells: “a Educação é uma corrida entre a Civilização e a Catástrofe”.

Pelo menos, é um dever contribuir para que, usando a arma pacifica da Educação, se consiga derrotar fanáticos e fanatismos, a fim de se viver – e não apenas sobreviver – numa sociedade civilizada.

Carlos Alberto Chiarelli

A racionalidade é uma pretensão humana?

Incidente acabou rendendo ao candidato uma ampla exposição na TV. (Foto: Reprodução)

Era praticamente uma unanimidade passiva. Como quem atuou por pouco menos de 20 anos na vida pública e dela se afastou (vou avisando logo: sem ser condenado, nem sentenciado, nem processado, nem indiciado, portanto, ficha limpa antes dela existir) por livre e espontânea vontade, tendo sido secretário de Estado, deputado federal, Senador da Republica e duas vezes Ministro, sou alvo de costumeiras perguntas: “O que o senhor acha dessa eleição? Quem lhe parece que vai ganhar? O senhor já definiu o seu voto? Pode revelar? Ou é segredo por que ainda pode mudar?”.

Esse tipo de indagação é feita por mais moços e menos moços; por partidários e por descompromissados de filiação; por homens e por mulheres; por atuantes no ambiente partidário e por aqueles que deixaram a política e não mostram interesse nem com a proximidade das eleições etc etc. Para eles, o tema está num arquivo quase morto de sua memória, desclassificando o ao elaborar a lista das suas prioridades pessoais. De qualquer maneira parecia que, com a definição do quem é quem (isto é, deliberado, pela Justiça Eleitoral, quem é e quem não é – ou não pode ser – candidato), a cessão de espaço no rádio e na TV aberta para os partidos políticos e seus candidatos, na chamada propaganda eleitoral, eletrônica e gratuita (gratuita é uma mentira: as emissoras que, por lei, tem de ceder seu espaço. São recompensadas pelo abatimento no Imposto de Renda que estariam obrigados pagar). Estava iniciada na prática a campanha. Falo, voltado unicamente para a campanha presidencial, posto que, num país onde Poder mesmo é o Executivo, que pode quase tudo e, quando não pode, edita uma medida provisória, desrespeitando até a Constituição, e se apropriando, depois de certo tempo, por usucapião de competência que não era sua.

De qualquer maneira, tormentos e tormentas, com o surgimento para a vida pública de siglas que só não tem filiados, muito menos eleitores mas tem estatuto registrado e algum deputado “baixo clero” que aderiu para adonar-se, mercantilmente, da legenda, celebram-se coligações, muitas vezes do nada com a coisa nenhuma. São trinta e cinco (35) partidos – faz de conta que a gente acredita e a Justiça também – na sua maioria verdadeiras “corretoras” de espaço (quem sabe mais apropriado) chama-las imobiliárias públicas que administram a comercialização do precioso tempo de propaganda, em nome de uma parceria que não leva em conta na sua formação qualquer afinidade. Forma-se uma coligação “fantoche”, sem princípios ideológicos sem a identidade do candidato e, muito menos compromissos com políticos públicos.

Enfim, com todas essas peculiaridades – é mais elegante chama-las assim – houve etapas vencidas, produzindo resultados na pré-campanha que, se fora na Fórmula Um, valeria para definir a colocação do candidato no grid de largada.

O aguardo do resultado das primeiras pesquisas gera ansiosa espera semanal dos candidatos que, na baixa, dizem que nelas não acreditam, quando, na verdade dobram a ansiedade esperando pela próxima; na alta, reproduzem, com alto falantes poderosos o resultado favorável, destacando a seriedade e a confiabilidade da consulta que, atestaria antecipadamente a sua (dele, candidato) vitorioso.

Assim marchou esse jogo de freios e contrapesos de uma campanha, aqui no Brasil, na prática, o primeiro, nas pesquisas, tinha fundados impedimentos que o inabilitavam a concorrer. De qualquer maneira, com recursos sobre recursos. Proporcionou-se a venda de ilusão e de interesses no intuito de negar o obvio. Prorrogaram – numa auto enganosa – estratégia de morte (com parcial ressurreição anunciada), celebrada num enterro de luxo, com um “coveiro” (ficha um na fila) e até moça suplente tinha e tem que findou agora. E acabou-se o sonho ou o pesadelo (mais provável) do Lula “ficha suja” candidato. Neste momento, chegou a hora de o PT, já com atraso, botar seu possível time em campo.

Do outro lado, numa versão oficiosa, sob possível (diria mais: provável) demência, um crente religioso, que poderia ser – ou não? – de esquerda, apunhala o candidato Bolsonaro, com a fúria de quem quer assassinar a democracia. Independente de gostar, ou não, do candidato, não há dúvida de que ele foi vítima da insegurança em que vivemos e do radicalismo do “nós contra eles”, da inexistência do diálogo, inclusive quando e por isso mesmo – imprescindível se assegurar o contraditório.

Lula definitivamente fora – condenado, na cadeia – e Bolsonaro, ferido, parcialmente incapacitado, gerou, como efeito imediato, o passar a régua no processo e entender que o recentemente ocorrido é tão forte que o que iria suceder – bastante presumível – é “bola ao centro”, que um novo jogo vai já começou. Índices de pesquisa a favor, números de rejeição contra, conceitos radicais e agressões incontroladas, vai tudo para o baú dos esquecidos.

Ganhará quem, ante o novo contexto e a reviravolta que dele ocorre, saiba harmonizar-se e humanizar-se, transitando pela estrada de curvas da sensibilidade das ruas, sentir com a vontade do povo, que pode não ter partido (mas tem) e terá querer.

Entende-lo, antecipadamente, será encontrar o fruto de onde se extrai a poção mágica da vitória, não de uma pessoa, mas de uma causa.

EPISÓDIO BOLSONARO

Importante é respeitarmos o cidadão e orienta-lo para que, conscientemente, se possa respeitar.

Apunhalar Bolsonaro, ferindo o mais elementar do Direito, o direito a vida, sangrando as liberdades civis é apunhalar, covardemente um pouco de cada um do cidadão brasileiro.

Campanha eleitoral pode – e deve – ser disputa de programas, batalha de ideias, guerra de conceitos. Tentar calar o candidato Bolsonaro, matando-o, é prova de que a racionalidade é apenas uma pretensão e não um ingrediente constante da espécie humana.

Longe de ser uma garantia que todos os descendentes “homem de NEANDERTHAL” dela disporiam, por isso, concordo com Lawerence quando diz: a vida de uma pessoa – há quem diga – pode não valer nada; mas não há nada que valha a vida de uma pessoa.

 

E a campanha?

Os votos nulos, por sua vez, cresceram de 5,8% para 6,1%. (Foto: Agência Brasil)

No mercado livre das lembranças, recordo, um domingo de sol, em Paris, há quantos anos não sei exatamente – mas não há dúvida que há muitos – intrometi-me no eleitorado “gaullista” que ocuparia todas as instalações de um grande auditório – três mil lugares – e vibrava, com bandeiras e cartazes, no apoio do candidato George Pompidou, que, pouco depois seria vitorioso na eleição presencial. Havia cores e cânticos. Vibração espontânea que se eletrificou quando o candidato, na hora prevista, subiu ao palanque. Era apenas a confirmação de que eleição na Europa tinha cara e jeito de eleição, principalmente quando, após o discurso, entremeado de vivas e palmas, o candidato descia da tribuna e vinha abraçar e apertar mãos de vibrantes correligionários que, pelo jeito, era aquilo mesmo que esperavam.

Na Espanha, na primeira ou segunda eleição parlamentar pós-Franco, o desfrute de uma democracia conquistada fazia do pleito instrumento vivo da liberdade que alguns haviam perdido e muitos nunca haviam exercitado: um momento radioso dessa nova sociedade que surgia. Em Madri, nas Cercanias de Arguelles, pude incorporar-me na passeata numerosa, rumo a Plaza de Espanha, onde já estavam outros milhares de correligionários, também chegados dessas verdadeiras “procissões do encontro”. Era a consagração popular do “cérebro” do Pacto da Mocloa, o líder centrista e equilibrado Adolfo Suarez. Jovens e velhos, com camisas coloridas, levavam pancartas – era assim que se chamavam – e repetiam, em uníssono, palavras de ordem. Num palanque armado na Praça, Suarez, empolgado e empolgante, falou vinte minutos e levou o dobro do tempo para “safar-se” do contato individual com incontáveis partidários (Centro Democrático) que o ajudaram a vencer a eleição e fazer-se primeiro Ministro. E a campanha eleitoral, antevéspera de eleição, era para todos, vibração, engajamento e convicção animadora – as vezes até inexplicável – de vitória.

Voltando, como de rotina, da Universidade de Roma, onde fazia pós-graduação, acomodado, sem muito conforto, no ônibus 63, horário das cinco da tarde, deparei-me com uma passeata do Partido Comunista que, em plena democracia italiana parlamentarista, era a segunda força política, amparada pela maior Central Sindical (CGIL). Desfilavam – e deviam ser milhares – animados, mas ordeiros, ocupando uma das pistas da avenida, de modo que o trafego continuasse a fluir. Notava-se a influência da disciplina sindical nos alinhamentos e temas dos cartazes (ficava claro que eram comunistas mas não alinhados com a Rússia), que até podia ser a saída de macro assembleia classista. Curioso, organizei-me para assistir, dois dias depois, similar espetáculo, atravessando a via de la consolazione – causal trajeto, pareceu-me – que é o caminho mais direto para o Vaticano. Era a passeata da Democracia Cristã que, na época e por muito mais tempo, majoritária, governou a Itália, com respaldo da CISL, a segunda maior central sindical do país. E, para ser breve, lembro de padres (relembrando o engajado e, à época, popular Dom Camilo) e freirinhas entusiasmadas no desfile, onde se misturavam fanáticos e tranquilos adeptos, todos, naquela ocasião, vivendo a emoção do pleito que, sem ela, seria um corpo intato, sem vida, mantido no formol.

Aqui e agora, estamos a seis semanas do pleito, aproximadamente.

Eleição que envolvera disputa para a Assembleia Legislativa (55 vagas), Câmara Federal (31 vagas), Senado da República (2 vagas), Governador do Estado e vice, Presidente da República e vice. Caminhava-se pelas ruas e não se enxergava uma janela era o plástico de um misero candidato (há tantos, podia até ser um vizinho) a deputado estadual, por exemplo.

Os automóveis estão com seus vidros impecavelmente invictos, numa declaração muda de que não se teve qualquer envolvimento com o chamado, pomposamente, de evento cívico que deveria – e deve – por direito e por dever, envolver a todos.

Lembrando, tempos passados, na Europa, movida a eleições participativas ou, por exemplo, do pleito recente – até demasiadamente disputado do que se alega – nos Estados Unidos (Trump x Hilary: espionagem, comícios, denuncias, vitória legal de quem teve menos votos), a campanha é vitamina insubstituível para um pleito que não seja apenas legal – e isto é impactante – mas legitimo, sobretudo, legitimado, por quem tem competência exclusiva de fazê-lo representativa.

O que aconteceu e porque não acontece, aqui e agora, uma verdadeira e necessariamente popular a campanha? Quais seriam os motivos: Antecedentes que desestimulam, pretensos líderes em conflitos afastados – até presos – partidos que nada significam, candidatos que não empolgam, mudança que se quer ou que se teme?

O que está faltando mesmo nessa estranha campanha eleitoral brasileira é o povo, parece que eleição não tem nada a ver com ele.

O assunto é importante e complexo. Voltaremos a ele!