Sábado, 19 de Setembro de 2020

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Colunistas 100 mil mortos

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No dia em que batemos a marca sinistra dos 100 mil mortos, ele usou o Twitter para cumprimentar o seu time do coração, o Palmeiras, pela conquista do campeonato paulista de futebol. (Foto: Reprodução/Twitter)

Quando Jair Bolsonaro nomeou o general da ativa Eduardo Pazuello ministro interino da Saúde havia uma objeção respeitável: o envolvimento dos militares, mais especificamente do Exército, em assunto que não lhes compete, e com o risco iminente de comprometer – ainda mais – o prestígio e a credibilidade das forças armadas.

Até então, eram 14 mil mortos da Covid-19. E se o número chegasse a 50 mil? Ou a 100 mil, numa conta daquelas em que a luz no fim do túnel é o trem que vem em sentido contrário? Era preciso dar tudo errado para se chegar a tais números. E deu. Muito mais cedo do que qualquer estimativa. 100 mil! 100 mil famílias chorando os seus mortos!

O que dirão o ministro da Defesa, os chefes militares do Exército, da Marinha e da Aeronáutica na Ordem do Dia de 25 de agosto, o Dia do Soldado, quando a estatística macabra apontar um número entre 120 e 130 mil?

O presidente só fala da pandemia para livrar a cara e atribuir a culpa da calamidade aos outros – STF, governadores e prefeitos. Como tantos (o colunista incluso) ele não soube dimensionar a magnitude do flagelo. Mesmo depois que os números da disseminação subiram de forma alarmante, ele manteve o pé fincado na consideração inicial, de que se tratava de coisa pequena, uma gripe comum. É típico de gente como Bolsonaro: não cede nem mesmo diante das evidências mais gritantes.

A cloroquina foi uma opção adotada por pura caipirice, para agradar esse campeão da bufonaria que é Trump. Como Bolsonaro acha que voltar atrás é sinal de fraqueza, permanece até hoje propagando a receita supersticiosa.

Bolsonaro se omitiu de seu dever primordial: propor um plano nacional de combate à pandemia, articular os governos de todas as instâncias, conclamar os concidadãos ao atendimento rigoroso dos protocolos de saúde. Era preciso um presidente que reunisse capacidade de liderança, empatia, determinação. Era preciso um personagem muito maior do que Bolsonaro.

Os dois primeiros ministros da Saúde, Mandetta e Teich, orientaram as suas ações pelas vozes mais abalizadas da ciência e da experiência mundial de combate ao flagelo, principalmente quanto ao isolamento. Mas o que fazer se a voz mais estridente de contestação das diretrizes de governo central era o próprio Bolsonaro?

E não apenas no discurso, mas nos gestos espalhafatosos de aperto de mãos, de circular sem máscara e de comparecer a eventos de massa. Quantos milhões mais, além dos seus seguidores fanatizados, terão aderido ao mau exemplo presidencial? O governo central emitiu o tempo todo, até a nomeação do general da Saúde, mensagens dissonantes e contraditórias. Pazuello, agora, é apenas um ordenança de Bolsonaro. A crise sanitária só podia se desdobrar em voluntarismo e caos.

O presidente, se chegou a falar de respeito aos mortos, de consolo às famílias enlutadas, de elogio a médicos e profissionais da saúde, foi aos sussurros – ninguém ouviu. Jamais visitou um hospital. No dia em que batemos a marca sinistra dos 100 mil mortos, ele usou o Twitter para cumprimentar o seu time do coração, o Palmeiras, pela conquista do campeonato paulista de futebol.

titoguarniere@hotmail.com 

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