Terça-feira, 11 de Maio de 2021

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Saúde A pandemia motivou a suspensão de 1 milhão de cirurgias não urgentes no SUS

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O objetivo da redução nas cirurgias eletivas foi liberar recursos, pessoal e instalações para enfrentar a covid-19. (Foto: Reprodução)

A pandemia de covid-19 provocou a suspensão de ao menos um milhão de cirurgias eletivas (não urgentes) no SUS (Sistema Único de Saúde) em 2020. O número consta de levantamento da Abraidi (Associação Brasileira de Importadores e Distribuidores de Produtos para Saúde). O setor estima que, considerados os setores público e privado, a queda média nos procedimentos cirúrgicos no ano passado tenha sido de 59,8%. Em algumas regiões, o recuo teria chegado a 90%.

O levantamento, feito junto a empresários do setor, constatou queda de 50,8% no faturamento das empresas de produtos para saúde em 2020. O motivo foi a redução dos procedimentos cirúrgicos. As empresas fornecem próteses, implantes, stents, marca-passos, entre outros dispositivos usados em cirurgias. “As pessoas imaginam, falsamente, que não houve crise na saúde”, afirma o presidente da Abraidi, Sérgio Rocha, com base nos dados levantados. “Mas fomos impactados com a pandemia muito mais do que outros segmentos.”

O objetivo da redução nas cirurgias eletivas foi liberar recursos, pessoal e instalações para enfrentar a covid-19. Especialistas estimam que nos próximos meses pode haver demanda explosiva por procedimentos. Ao mesmo tempo, a pandemia se prolonga. A combinação dos dois processos poderá pressionar ainda mais o sistema de saúde já praticamente colapsado.

“Ao longo do último ano, os hospitais foram praticamente bloqueados para o atendimento de casos de covid-19. Nada mais justo diante da pandemia”, pondera Rocha. “Mas embora essas cirurgias eletivas não sejam urgentes, elas têm um tempo para acontecer, a condição dos pacientes pode se agravar.”

Esse é o receio do trabalhador rural Celso Moura dos Santos, de 58 anos, morador de Araçoiaba da Serra (SP). Ele estava com uma cirurgia de artoplastia – procedimento para corrigir a articulação – no joelho esquerdo, marcada para o dia 15 de março último, em um hospital de Votorantim. “Uma semana antes, ligaram do hospital avisando que a cirurgia não seria realizada por causa da pandemia. Vou ter de esperar mais tempo”, conta ele, que aguarda a operação há mais de um ano.

“O pior é que está cada vez mais difícil fazer as tarefas”, diz ele, que já não consegue mais dirigir o trator. Como a doença é degenerativa, ele teme que as condições piorem. “Com a pandemia, os serviços também são poucos e, na minha condição, fica difícil encontrar quem me pegue para trabalhar.” O hospital informou que, em razão da crise sanitária, cirurgias que não apresentavam caráter de urgência foram adiadas, mas está desenvolvendo cronograma de mutirões para reduzir a demanda por esses procedimentos.

Já a aposentada Maria Aparecida Santos, de 69 anos, deu entrada em um hospital de Sorocaba com quadro de dores intensas no abdôme. O diagnóstico, segundo a família, foi de pancreatite aguda provocada pelo acúmulo de pedras nos rins e na vesícula. “A decisão médica foi pela cirurgia para a retirada dos cálculos (pedras) e ela ficou internada com esse objetivo, mas aí entrou a questão da pandemia”, afirma o neto, Matheus Oliveira, de 20 anos.

Segundo o jovem, ela ainda sente dores, mas com menor intensidade. “Os médicos disseram que, se as dores voltarem, ela deve ser levada ao hospital para nova avaliação, mas só operam se for urgência.” A administração do hospital informou que as cirurgias eletivas estão sendo feitas conforme critério médico e, no caso da idosa, o tratamento visa à reversão da pancreatite para posterior avaliação de novos procedimentos.

Para 86% dos empresários do setor, a retomada só deverá começar no fim do 2º semestre ou em 2022. “A pesquisa qualitativa mostrou que os executivos acreditam que as cirurgias eletivas só serão retomadas, em sua plenitude, quando a maioria da população estiver vacinada, provavelmente no final deste ano”, prevê Sérgio Rocha.

Segundo Rocha, o estudo estima que a recuperação será lenta. O processo poderá ser prejudicado pela explosão de pacientes e óbitos de outras enfermidades. São doenças cardiovasculares, ortopédicas e cânceres. Esses males crônicos não transmissíveis causam 74% das mortes no País, em tempos sem pandemia.

“O maior problema é o agravamento da condição dos pacientes, que pode ter consequências graves”, aponta o diretor-executivo da Abraidi, Bruno Bezerra. “O sistema público já tem filas de atendimento normalmente, porque não há capacidade instalada para atender a todos que precisam de cirurgia de forma imediata. Com o represamento das cirurgias, com certeza haverá aumento das filas.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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