Sexta-feira, 03 de Abril de 2020

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Capa – Magazine Cineasta Martin Scorsese mistura documentário e alucinação em filme sobre Bob Dylan

Bob Dylan no filme "Rolling Thunder Revue", de Martin Scorsese. (Foto: Netflix/Divulgação)

Foi uma mistura de circo, show de variedades, turnê colaborativa e loucura poético-musical itinerante. Dividida em duas pernas, entre 1975 e 1976, a “Rolling thunder revue” de Bob Dylan sintetizou os EUA que viviam a ressaca da revolução cultural da década anterior. Ao invés da Era de Aquário e da liberdade comportamental, o país teve Charles Manson, a Guerra do Vietnã e o conservador Richard Nixon, que renunciou à presidência após o escândalo de Watergate.

No meio do cinismo desse desbunde sem norte, Dylan, que só havia retornado aos palcos em 1974, após oito anos longe da estrada, na hoje histórica série de shows com The Band, decidiu reunir poetas como Allen Ginsberg e cantoras como Joan Baez para ir aonde o povo estava: pequenos teatros de pequenas cidades dos EUA e do Canadá. É este período que Martin Scorsese destrincha em seu novo documentário, “Rolling Thunder Revue: A Bob Dylan Story by Martin Scorsese”, que estreou nesta quarta na Netflix.

Assim como a turnê que aborda, o diretor mergulha um pouco na alucinação daquela década, mesclando ficção e realidade. Entre imagens restauradas da época, como versões épicas ou alternativas de “A hard rain’s a-gonna fall”, “Isis” e “Simple twist of fate”, há personagens fictícios como o cineasta Stefan Van Dorp (Martin Von Haselberg) e Sharon Stone, que interpreta a si mesma relembrando uma adolescência que não viveu, na qual teria embarcado na caravana de Dylan.

Esse artifício, no qual Scorsese não separa mentira e verdade, tira qualquer credibilidade que os depoimentos recentes de Dylan e Baez poderiam trazer para iluminar o que é realidade e o que é folclore sobre a turnê. Não que esse deboche não traga boas risadas. Passagens como Patti Smith inventando uma história absurda sobre Super-homem ou Stone dizendo que seu suposto ídolo escrevera “Just like a woman” para ela na estrada — apesar de a música ter sido lançada dez anos antes — são hilárias. Mas a brincadeira aproxima o filme mais do mockumentary “This is Spinal Tap (1984), de Rob Reiner, do que de “No direction home” (2005), do próprio Scorsese, que investiga a trajetória de Dylan nos anos 1960.

Talvez essa tenha sido a maneira que o diretor de “Touro indomável” encontrou para convencer seu velho amigo, conhecido por ser avesso a entrevistas, a participar da empreitada. O que para muitos espectadores desavisados pode servir como uma pegadinha — como cenas do filme “Renaldo and Clara” colocadas como diálogos verdadeiros —, no entanto, não tira a contundência da obra.

Há também muita beleza em meio à traquinagem do longa, como Joni Mitchell apresentando uma versão inicial de “Coyote” em meio a uma roda de violão nos bastidores da excursão, uma analogia do ator e dramaturgo Sam Shepard comparando o bardo folk americano com Shakespeare, Dylan e Ginsberg visitando o túmulo de Jack Kerouac ou o próprio autor de “Uivo” lendo seus versos incendiários para uma plateia de idosas que pareciam mais preparadas para uma partida de bingo no asilo do que para uma sessão de poesia beat.

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